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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Colostro suplementar e a saúde e desempenho dos bezerros

Por Carla Maris Machado Bittar
Em 30/05/2017 no site MilkPoint

Recentemente, a indústria pecuária tem sido encorajada a reduzir o uso de antibióticos na produção animal. É clara a preocupação com o desenvolvimento de bactérias de origem animal que apresentam resistência aos antibióticos utilizados na medicina humana. Entretanto, no manejo sanitário pecuário, a morbidade e mortalidade por doenças infecciosas ainda é uma causa comum de perdas econômicas para os produtores. Portanto, desenvolver alternativas aos antibióticos para minimizar as perdas associadas com doenças infecciosas é uma necessidade evidente da indústria pecuária.

O colostro bovino tem sido utilizado com êxito na medicina humana como uma terapia alternativa aos antimicrobianos no tratamento de doenças infecciosas do trato gastrointestinal. Isso se deve às propriedades antibacterianas e antivirais dos componentes do colostro bovino, tais como a lactoferrina e as citocinas pró-inflamatórias. Anticorpos específicos contra patógenos infecciosos contidos no colostro materno fornecem proteção ao bezerro recém-nascido durante os primeiros meses de vida e são importantes preditores de saúde e desempenho dos bezerros.

Desta forma, o objetivo da pesquisa conduzida por Chamorro et al. (2017) foi avaliar os efeito de uma dose suplementar de 150 g de substituto de colostro fornecido juntamente com o sucedâneo, durante os primeiros 14 dias de vida, para avaliar a ocorrência de doença, administração de antibiótico e parâmetros de desempenho de bezerros leiteiros durante o aleitamento com adequada transferência de imunidade passiva.

Para a pesquisa, foram utilizadas 202 bezerras da raça Holandesa com 1 dia de idade e todas com adequada transferência de imunidade passiva (IgG sérica >10 g / L). Após a chegada, as bezerras foram distribuídas em 2 tratamentos: Grupo controle (n= 100), recebendo sucedâneo sem suplementação de substituto de colostro. Grupo suplementado (n = 102), recebendo sucedâneo + substituto de colostro em pó (150 g de colostro bovino em pó contendo 32 g de IgG), duas vezes por dia durante os primeiros 14 dias de vida.

Os parâmetros clínicos avaliados foram: respiração, consistência fecal, depressão, umbigo e articulações. O tratamento com antibiótico foi realizado quando os parâmetros clínicos apresentaram-se anormais. Registrou o tipo de antibiótico e o número total de doses de antibióticos administradas (Tabela 1).

Tabela 1. Estatística descritiva do tratamento de antibiótico de acordo com a suplementação ou não de colostro.

suplementação com colostro
Sucintamente para o grupo de animais suplementados, as probabilidades de apresentar escore fecal, respiratório, depressivo e umbilical anormais foram 0,15; 0,46; 0,21; e 0,18 vezes, respectivamente, as probabilidades de bezerras do grupo controle (Tabela 2). Assim, as bezerras do grupo suplementado apresentaram menor probabilidade de apresentar escore fecal, respiratório, depressivo, umbilical e de articulação anormal em comparação com as bezerras do grupo controle (Tabela 2). 

Tabela 2. Índice de Probabilidades para escores fecal, respiratório, depressão, umbilical e avaliações clínicas conjuntas em bezerros.

suplementação com colostro
¹ n = número de medições (registado a partir de 202 bezerras observados de d 0 a 56)
2IP = Índice de probabilidade

Da mesma forma, a probabilidade de receber tratamento com antibióticos foi de 18,8% para animais suplementados com colostro e de 76,5% para animais do grupo controle. Para as bezerras suplementadas com colostro, a probabilidade de receber 1 ou mais doses de antibióticos foi 89% inferior aquela observada para animais controle.

O fracasso na transferência da imunidade passiva é um dos fatores de risco e preditores mais importantes da morbidade e mortalidade dos bovinos de leite. As concentrações séricas de IgG no primeiro dia de vida foi de 23,6 e de 22,8 mg/dL para animais suplementados e controle, respectivamente (Tabela 3). O nível médio de IgG sérica na chegada à instalação de criação de bezerros de ambos os grupos foi maior que os níveis propostos para que a transferência de imunidade passiva seja considerada "excelente" (15 mg/dL).

Nestas condições de transferência de imunidade passiva bem sucedida, a IgG sérica média à chegada não teve um efeito significativo na mortalidade, na apresentação de escores clínicos anormais ou no tratamento com antibióticos. A mortalidade neste estudo foi baixa (1,48%) possivelmente devido aos altos níveis de IgG sérica encontrados em todas as bezerras no início do estudo. No entanto, muitos animais do grupo controle apresentaram diarreias e vários apresentaram problemas respiratórios. Estes dados sugerem que a imunidade derivada da mãe nem sempre protege contra os desafios infecciosos na superfície da mucosa do trato entérico e respiratório.

Tabela 3. 
Concentração sérica de IgG no primeiro dia de vida e ganho de peso diário durante período de aleitamento.

suplementação com colostro

O fornecimento de aproximadamente 30% (150 g de pó de IgG a 14%) de um substituto do colostro duas vezes ao dia durante os primeiros 14 dias de vida exerceu efeito protetor contra a diarreia (escore fecal anormal), doenças respiratórias (escore respiratório anormal), aumento das estruturas umbilicais e tratamento com antibióticos em bezerros leiteiros reduzindo o risco de diarreia, doença respiratória e aumento umbilical. Adicionalmente, os bezerros suplementados tiveram um número total reduzido de doses de antibióticos administradas em comparação com o grupo controle.

Os substitutos de colostro têm sido defendidos como alternativa para evitar falhas na transferência de imunidade passiva em bezerros quando a disponibilidade de colostro materno é baixa ou quando a qualidade do colostro materno é comprometida devido a baixos níveis de IgG ou à presença de patógenos transmitidos pelo colostro. Com base nos resultados deste estudo, os substitutos de colostro podem também ser utilizados como suplemento da dieta líquida, seja no leite ou no sucedâneo para diminuir a ocorrência de doenças e a necessidade associada de tratamento com antibiótico em bezerros leiteiros em aleitamento, independentemente do seu status na transferência de imunidade passiva.

Mais informações sobre aleitamento de bezerros podem ser encontradas em um curso online exclusivo para assinantes do EducaPoint. Acesse: aleitamento-bezerras e confira.
Referências bibliográficas
CHAMORRO, M. f.; CERNICCHIARO, N. HAINES, D. M. Evaluation of the effects of colostrum replacer supplementation of the milk replacer ration on the occurrence of disease, antibiotic therapy, and performance of pre-weaned dairy calves. Journal of Dairy Science, v. 100 n. 2, p. 1378–1387. 201.

Comentários
Os benefícios do fornecimento prolongado de colostro para bezerros durante o aleitamento não é novidade. Vários estudos já haviam mostrado efeitos interessantes na saúde e consequentemente no desempenho de animais suplementados com colostro (ou mais especificamente leite de transição) durante as primeira semanas de vida. Embora os animais não tenham mais a capacidade de absorver anticorpos, seu fornecimento suplementar auxilia na imunidade local (intestino), sendo importante para animais que têm as diarreias como principal causa de morbidade e mortalidade. No entanto, o fornecimento durante por volta de 14 dias não é comumente realizado por produtores devido a baixa e variável disponibilidade de colostro e leite de transição nas propriedades. Com a entrada de vários produtos comerciais no mercado nacional, seja suplemento ou substituto de colostro, o produtor tem agora tecnologia disponível não só para adequar problemas na transferência de imunidade passiva, mas também para fazer fornecimento suplementar. O trabalho mostrou que mesmo em animais com adequada imunidade, a suplementação pode trazer benefícios reduzindo a probabilidade do animal apresentar diarreias, assim como a de receber tratamento com antibióticos. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Desempenho e saúde de bezerras leiteiras criadas em diferentes abrigos individuais


O estresse térmico em bezerras causa alterações fisiológicas e, consequentemente de comportamento, que fazem com que o animal diminua a ingestão de alimentos e reduza seu desempenho e saúde. Por esse motivo é preciso reforçar a importância do alojamento dos animais que além de limpo e seco, deve ser ventilado e fornecer sombra ao longo do dia. São vários os tipos de abrigo utilizados em sistemas individualizados e da mesma forma existe uma imensa variação de custos. Entretanto, qual o melhor modelo para a saúde e desempenho das bezerras?

Os abrigos individuais mais utilizados hoje em dia são o tipo “Tropical” e “Calf-Tel”. O abrigo do tipo “tropical” possui armação nas laterais vazadas que pode ser feita de diversos materiais e um telhado de material que evita a absorção de calor e garante uma área de sombra aos animais (Figura 1A). O abrigo “tropical” possui um valor mais acessível, entretanto em locais muito quentes pode predispor as fêmeas ao estresse térmico já que a área de sombreamento é bastante limitada em determinadas horas do dia. 
 
O alojamento “Calf-Tel” (Figura 1B) por sua vez é totalmente fechado com estrutura de polietileno, com abertura frontal e ventilação na parte de trás que garante sombra ao longo de todo o dia e uma boa ventilação. No entanto, pode ainda assim trazer problemas relacionados a maior temperatura interna associada a alta umidade. Além disso, seu custo é mais elevado.

Figura 1. (A) Abrigo “Tropical”, (B) Abrigo “Calf-Tel”. 

Desempenho e saúde de bezerras leiteiras criadas em diferentes abrigos individuais

Em um trabalho desenvolvido por Peña et al., (2016), foram comparados dois tipos de abrigos individuais e seus efeitos no desempenho e saúde de bezerras leiteiras em aleitamento:

- um abrigo bastante parecido com o nosso abrigo tropical, feito de laterais de arame e telhado de madeira, ao qual vamos denominar de “Arame” também e;

- o “Calf-Tel”. 

Os animais foram criados no verão (junho a agosto) em condições subtropicais com temperaturas que variavam de 21,1 a 32,5º C e umidade relativa do ar em média de 92,9%. O índice de temperatura e umidade (ITU) para os três meses foi de em média 79,2, enquanto os abrigos tiveram valores médios de 78,2 e 78,8 para o “Calf-Tel” e “Arame”, respectivamente.

A precipitação ao longo do experimento foi de 147,8; 193,0 e 202,4 para os meses avaliados. O ITU estima a magnitude do estresse térmico. Em vacas holandesas adultas, o ITU entre 72 a 77 é capaz de reduzir a produção de leite, entretanto não se sabe ao certo esse valor para bezerros.

Foram utilizadas 100 fêmeas de raça holandesa ou mestiças Jersey alocadas após a colostragem em um dos dois modelos de alojamento. O abrigo “Arame” permaneceu em uma área arborizada enquanto o alojamento “Calf-Tel” esteve em uma área exposta a luz solar direta. O experimento teve duração de nove semanas (tempo necessário para o desaleitamento dos animais). As fêmeas eram pesadas ao nascimento e ao desaleitamento e submetidas semanalmente à avaliação de escore de saúde (frequência respiratória, temperatura retal, escore fecal, descarga nasal, descarga ocular e posicionamento de orelha).

Ao longo do experimento notou-se aumento das taxas respiratórias dos bezerros alojados em “Calf-Tel” comparados aos bezerros em alojamento do tipo “Arame” (Figura 2). Às 9h a frequência respiratória e temperatura retal em ambos os tratamentos foram iguais, entretanto às 15h as taxas respiratórias de bezerros em “Calf-Tel” foram de 30 respirações por minuto superiores. Essa maior taxa pode ser atribuída à adaptação fisiológica ao tipo de abrigo. Por outro lado, a menor taxa observada para animais alojados nos abrigos tipo “Arame” pode ser justificada pela sombra suplementar utilizada.

Figura 2. Taxa respiratória de 26 bezerros alojados em abrigos de arame (■) ou calf-tel (▲) as 9h am e as 3h pm.

Desempenho e saúde de bezerras leiteiras criadas em diferentes abrigos individuais

Os altos valores de ITU registrados no presente estudo (acima de 77) podem explicar a elevação das temperaturas retais e das frequências respiratórias em bezerros durante o período da tarde (especialmente nos abrigos), uma vez que esta pode ser uma resposta fisiológica à alta temperatura ambiente e à umidade.

Não houve diferença estatística (p<0,05) no ganho de peso dos animais durante a fase de aleitamento (Tabela 1). A proteína sérica dos animais foi realizada a fim de detectar falhas de imunidade passiva dos animais, que não ocorreram.

Tabela 1. Dados de proteína sérica e desempenho das bezerras de diferentes raças em diferentes abrigos.

Desempenho e saúde de bezerras leiteiras criadas em diferentes abrigos individuais

Quanto aos dados de saúde (Tabela 2), os animais criados em abrigo do tipo “Arame” tiveram um maior número de casos de descarga ocular, tosse e de necessidade de intervenção por médico veterinário. Com base nisso, os autores enfatizaram que os animais criados nesse tipo de abrigo ficaram um maior número de vezes doentes e tiveram maior gasto com medicamentos e tratamento.

Tabela 2. Frequência de bezerros categorizados nos escores de saúde baixos e proporção de animais que receberam tratamento veterinário.

Desempenho e saúde de bezerras leiteiras criadas em diferentes abrigos individuais

O experimento demonstra a importância do controle do estresse térmico nas bezerras para o desempenho e saúde destes animais. Embora ambos os abrigos tenham apresentado dados de desempenho parecidos, os gastos com a saúde dos animais em abrigo tipo “Calf-Tel” foi bastante reduzido, demonstrando que esse tipo de abrigo se adaptou melhor às condições ambientais apresentadas nesse experimento.

Comentários
A individualização de bezerros tem sido utilizada principalmente para reduzir a disseminação de doenças, mas também para permitir maior controle do consumo de dieta sólida dos animais. Variados tipos de abrigos podem ser utilizados com sucesso, desde que aspectos relacionados ao ambiente adequado (limpo, seco, ventilado) que resultem em bem-estar animal sejam considerados.

As gaiolas suspensas são práticas por alojarem os animais num menor espaço, mas exigem bom manejo de limpeza, muitas vezes com troca de cama e lavagem de galpões que devem ser bem ventilados para reduzir umidade relativa do ar. Já os abrigos, permitem maior locomoção dos animais, mas exigem muitas vezes que sejam trocados de lugar ou que a cama seja trocada. Alguns abrigos podem resultar em maior estresse térmico quando não tem projeção de sombra disponível e adequada durante todo o período do dia.

Os abrigos fechados provem esta sombra, mas muitas vezes têm problemas de ventilação e são muito quentes, fazendo com que o bezerro possa preferir se deitar ao sol nos horários mais quentes do dia. O trabalho relatado mostra diferenças nestes abrigos, muito embora a sombra suplementar tenha sido utilizada na área com abrigos de arame, bem parecidos com as casinha tropicais.

A sombra suplementar tem sido uma ótima estratégia para aumentar o bem-estar dos animais no verão, mas deve-se atentar para que não seja demasiada. Áreas muito sombreadas também podem trazer problemas por não permitirem a incidência de sol que é importante para manter a área seca. Assim, nem tanto o sol e nem tanto a sombra.
Referências bibliográficas 
G. Peña, C. Risco, E. Kunihiro, M-J. Thatcher, and P. J. Pinedo. 2016. Effect of housing type on health and performance of preweaned dairy calves during summer in Florida. J. Dairy Sci. 99:1655–1662.

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