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sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Orgânico vs. Convencional: como produtores entendem a criação de bezerras?

Em 30/11/2017 no site MilkPoint

Resultado de imagem para bezerros leiteiros


Apesar das premissas básicas com os cuidados dos recém-nascidos, o manejo de bezerras leiteiras é diferente em cada propriedade, de acordo com o sistema de alimentação, manejo e até preferências do criador. Observam-se diferenças especialmente quando uma propriedade adota o sistema de produção orgânico, o qual demanda cuidados devido as normas impostas pelo sistema de certificação. Em um estudo realizado pela The Ohio State University, foi possível comparar as atitudes dos produtores durante o manejo de bezerras leiteiras entre fazendas convencionais e orgânicas (Pempek et al., 2017). 

Bezerros têm alto risco de morbidade e mortalidade, portanto entender as atitudes dos produtores é importante para implementar práticas que melhorem a saúde dos animais e seu bem-estar. Uma pesquisa enviada por e-mail para produtores convencionais e orgânicos nos Estados de Ohio e Michigan incluiu perguntas sobre as principais etapas da criação: a separação do bezerro da mãe, colostragem e o uso da vacinação, com o intuito de identificar a frequência dessas práticas nos diferentes sistemas. 

As perguntas foram desenvolvidas por veterinários, produtores de leite e especialistas em bezerros da The Ohio State University. Juntamente com o questionário, foi enviada uma carta introdutória, relatando que as respostas seriam confidenciais e deveriam ser respondidas pelo funcionário com maior contato com os bezerros. Foi realizado um estudo piloto e os envolvidos chegaram em um questionário final com 71 perguntas sobre a saúde dos bezerros. A pesquisa também foi utilizada para chamar a atenção dos produtores dos riscos e benefícios das práticas utilizadas por eles. Participaram da pesquisa um total de 449 produtores convencionais e 172 produtores orgânicos. 

Tamanho do rebanho, instalações da maternidade, método de fornecimento de colostro e vacinação foram práticas que diferiram entre os produtores. Por exemplo, 56% dos produtores convencionais possuíam rebanhos pequenos (menos que 100 vacas) e 39% possuem um rebanho médio (em torno de 100 a 499 vacas), enquanto a maioria dos produtores orgânicos, em torno de 94%, apresentam um rebanho pequeno. 

A maioria dos criadores convencionais (64%) separaram os bezerros das mães com 30 minutos a 6 horas após o parto (Figura 1). Em contraste, 42% dos criadores orgânicos separam os animais nesse mesmo período de tempo e 34% reportam separar o bezerro da mãe em um período de 6 a 12 horas após o parto. Poucos produtores, tanto orgânicos como convencionais, reportaram separar o bezerro da mãe após 12 horas de nascimento, mas desses que relataram, a maioria são produtores orgânicos. A separação tardia pode trazer desvantagens para o animal e para o produtor, expõe os bezerros a um maior número de patógenos e não garante uma boa colostragem, realizada em tempo, quantidade e qualidade correta. A oferta de colostro garante a sobrevivência e saúde do animal durante toda sua vida, por isso deve ser feita de maneira adequada.

Figura 1. Porcentagem de produtores de leite convencionais e orgânicos que reportaram separar os bezerros recém-nascidos das mães em um tempo menor que 30 minutos, 30 minutos a 6h, 6h a 12h, 12h a 18h, 18 a 24h ou até mais que 24h. Houve uma diferença significativa entre os sistemas de produção.

criação de bezerras
Esses resultados podem ser explicados pelo fato dos produtores orgânicos serem mais favoráveis a ideia de adiar a separação em até 2 horas após o parto, pois acreditam ser benéfico para a saúde da vaca e do bezerro. Por outro lado, os tratadores de fazendas convencionais acreditam que a separação com até 1 hora após o parto acontece devido as facilidades no manejo da fazenda e suas instalações. 

Operações orgânicas enfatizam os componentes de bem-estar dos animais, que inclui a habilidade de realizar comportamentos naturais como: o contato maternal e mamar nas mães. Entretanto, a realização da separação precoce entre os produtores convencionais é impulsionada pelo desejo de melhorar a saúde do animal, enquanto entre os produtores orgânicos, é realizada de uma maneira que seja possível incorporar comportamentos naturais do animal.

A maioria dos produtores convencionais (68%) reportou fornecer de forma controlada o colostro para os bezerros recém-nascidos, enquanto apenas 30% dos produtores orgânicos adotam essa técnica. Em contraste, mais produtores orgânicos (38%) deixam os bezerros com as mães para mamar o colostro, enquanto apenas 13% dos convencionais deixam a colostragem por conta das mães. Finalmente, 17% de convencionais e 30% dos orgânicos reportaram combinar a mamada livre do colostro com o fornecimento à mão. 

Sobre as instalações, 38% dos produtores orgânicos reportaram uso de abrigos individuais para bezerros, uma quantia similar aos produtores convencionais. Mas os produtores orgânicos relataram diferenças quanto as características das instalações, sendo essas basicamente formadas por pastagem.

A pergunta “Durante suas operações rotineiras são utilizados instrumentos como o colostrômeto ou refratômetro para medir a qualidade do colostro fornecido para o recém-nascido?” teve resposta negativa independente do sistema, a grande maioria reportou não utilizar nenhum instrumento. Apenas 10% e 3% de produtores convencionais e orgânicos, respectivamente, reportaram utilizar instrumentos (Figura 2).

Figura 2. Porcentagem de produtores de leite orgânico e convencional que reportaram medir a qualidade do colostro. As respostas diferiram de acordo com o tamanho do rebanho. Um único produtor orgânico com um rebanho grande (> 500 vacas), participou do questionário e ele reportou realizar a medição da qualidade do colostro.
criação de bezerras

Quarenta e quatro por cento dos produtores convencionais e 14% de produtores orgânicos, reportaram vacinar seus bezerros para doenças respiratórias. Os autores do trabalho acreditam que pelos criadores orgânicos manejarem seu rebanho de forma diferente, é possível que as doenças respiratórias ocorram com menor frequência e que a vacinação não se faz necessária. Por exemplo, Bidokthi e seus colaboradores (2009) observaram que rebanhos na Suiça apresentaram menor incidência de doenças respiratórias que os rebanhos criados de forma convencional. E finalmente as taxas de mortalidade não tiveram diferença significativa entre os diferentes sistemas de criação. 

Com esse trabalho é possível observar os diferentes estímulos que impulsionam os produtores a tomarem suas atitudes. É possível concluir que a tomada de decisão dos produtores se difere por múltiplas razões: promover a saúde dos animais, instalações da propriedade, facilidade no manejo, preservar o comportamento natural dos animais e interação social entre eles. Este trabalho sugere que existem grandes e importantes diferenças entre produtores orgânicos e convencionais no que tange as atitudes e práticas de manejo que afetam a saúde de bezerras. 

Da mesma forma, produtores orgânicos e convencionais discordam dos benefícios e riscos de práticas comuns de manejo de bezerras, especialmente aquelas relacionadas a separação do bezerro, fornecimento de colostro e vacinação. Estudos futuros podem identificar práticas individuais que promovam maior eficiência no manejo e possam ser utilizadas por ambos os sistemas, podendo então, atender as necessidades dos animais e promover uma boa produtividade. Essas informações são importantes para desenvolver programas que orientem os produtores e promova o desenvolvimento dos animais.

Referências bibliográficas
Bidokhti, M. R., M. Tråvén, N. Fall, U. Emanuelson, and S. Alenius. 2009. Reduced likelihood of bovine coronavirus and bovine respiratory syncytial virus infection on organic compared to conventional dairy farms. Vet. J. 182:436–440.

Pempek, J.A.; Schuenemann, G. M. ; Holder, E. and Habing, G. G. 2017. Dairy calf management—A comparison of practices and producer attitudes among conventional and organic herds J. Dairy Sci. 100:8310–8321.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Uso de própolis como aditivo na dieta de bezerros leiteiros

Por Carla Maris Machado Bittar e Giovana Simão Slanzon 
Em 26/07/2017 no site MilkPoint

A preocupação do consumidor com a preservação ambiental e com a segurança alimentar dos produtos oriundos de fazendas com sistemas intensivos gera um reflexo no aumento da demanda por alimentos orgânicos, um mercado que tem crescido acentuadamente nos últimos dez anos. A saúde é o fator primordial que faz com que as pessoas paguem mais caro pelo alimento livre de contaminantes e resíduos químicos. Dessa forma, a economia globalizada desafia cada vez mais os produtores brasileiros a se tornarem empreendedores rurais eficientes e competitivos, que busquem ganho de produtividade, redução dos custos e melhoraria na qualidade.


O objetivo principal das práticas orgânicas de criação é a prevenção de doenças. Saúde não é apenas a ausência de doença e sim a habilidade de resistir a infecções, ataques de parasitas e perturbações metabólicas. O tratamento veterinário é considerado sempre um complemento e nunca um substituto as boas práticas de manejo. Deve-se sempre priorizar a prevenção, mas quando houver algum distúrbio com necessidade de intervenção, além de procurar as causas e não somente combater os sintomas, buscar métodos naturais para realizar o tratamento. A própolis tem sido apontada para o tratamento de inúmeras enfermidades, tanto na medicina humana como na veterinária, tendo apresentado efeitos positivos sobre a saúde do animal. 

Em função de suas propriedades antibacterianas (Saeki et al., 2011), coccidiostáticas (Moura et al., 1998), leishmanicida (Ayres et al., 2007) e antioxidantes (Cabral et. al., 2009), a própolis apresenta um alto potencial para ser utilizada em grande escala nos sistemas produtivos para a prevenção e tratamento de doenças características da fase de desenvolvimento dos bezerros, promovendo a saúde dos animais. Para que a atividade leiteira seja economicamente rentável é de extrema importância o bom crescimento das bezerras, associado a baixas taxas de morbidade e mortalidade. Uma vez que os custo com mortalidade e enfermidades representam uma grande parcela dos custos totais, esse sucesso depende do manejo nutricional, meio ambiente e saúde dos bezerros. 

Levantamentos mostram que a principal causa de mortalidade de bezerros nos Estados Unidos ocorre devido distúrbios gastrointestinais, como a diarreia (USDA, 2007). Resultante dessas complicações, os sistemas de produção aumentam cada vez mais a inclusão de aditivos que tenham efeito no controle de diarreias, já que ela representa a principal moléstia que acomete os bezerros nas primeiras semanas de vida, causando baixos índices de desempenho animal e alta mortalidade. 

O uso de antibióticos começou a ser feito de forma desenfreada, com dosagens altas, acarretando em consequências negativas, como por exemplo, a resistência a antibióticos, que se tornou uma preocupação para a saúde pública. Na busca por métodos naturais como uma alternativa ao uso de antibióticos, a utilização da própolis na alimentação de bezerros apresenta potencialmente resultados positivos.

A própolis é um produto natural composto por resinas vegetais; cera de abelhas; óleos essenciais e pólen. Sua atividade farmacológica é capaz de inibir o crescimento de microrganismos e em ruminantes se mostrou eficaz como promotora de mudanças na fermentação ruminal, com propriedade bacteriostática sobre as bactérias gram-positivas, propriedade essa pertencente aos ionóforos como a monensina. Estudos indicam que a atividade antibacteriana da própolis sobre as bactérias causadoras de infecções em animais de produção combate o agente causador da doença sem desenvolver resistência bacteriana à própolis. 

Estudo realizado por Peravian et. al. (2014), comparou o efeito da própolis e da monensina na dieta de bezerros leiteiros, e demonstrou efeito positivo da própolis, com aumento do consumo de matéria seca e para o ganho de peso. Em outro trabalho, os autores apontam benefícios da suplementação de 1000 ppm de própolis na capacidade de melhorar a imunidade, albumina e a taxa de IgG de bezerras fêmeas da raça Holandês em relação ao aditivo monensina.

Uma das fases mais críticas no desenvolvimento dos animais é a fase do desaleitamento devido à baixa adaptação aos alimentos sólidos, nessa fase a imaturidade digestiva facilita a colonização do trato gastrointestinal por microrganismos patogênicos, o que favorece a ocorrência de diarreia, comprometendo o desempenho animal. No trabalho realizado por Yucel et al. (2015) foi comprovado o efeito benéfico da própolis (2 mL/d) na prevenção da diarreia em bezerros, resultando em maior ganho de peso. Quando a doença é controlada, a energia é utilizada para o crescimento e não para o combate das doenças características dessa fase. A diarreia é a principal doença que afeta os bezerros nas primeiras semanas de vida, sendo que sua ocorrência pode estar relacionada com a imunidade neonatal, o rebanho, nutrição, instalações e a época do ano. 

Em trabalho realizado no Bezerreiro Experimental do Depto. de Zootecnia da ESALQ/USP, pode-se observar que o fornecimento de extrato alcoólico de própolis (EAP) vermelha (30%) não resultou em recusa da dieta líquida. O consumo total de EAP foi de 4 mL/d, sendo fornecido 2mL diluídos em 3L de leite em cada aleitamento. Os resultados ainda estão sendo analisados para entender se houve efeito no ganho de peso dos animais durante os 56 dias de aleitamento. Como o estudo foi conduzido no verão, período de maior ocorrência de diarreias em sistemas com abrigos tropicais, deveremos identificar efeitos também na saúde. 

Figura 1. Fornecimento de 2 mL de extrato alcoólico de própolis vermelha em 3 L de leite.

própolis - ruminantes - bezerras

Outro aspecto que deve ser considerado é o custo da própolis. Embora existam no mercado diferentes tipos de própolis, a própolis vermelha parece ser aquela com maior potencial de efeito nos animais. Os extratos comercializados em farmácias de manipulação são na sua maioria da própolis verde e tem concentrações bastante variáveis. A própolis pura vermelha tem custo elevado, o que pode diminuir a possibilidade de adoção como aditivo para ruminantes, tudo dependerá dos resultados na melhoria do desempenho e saúde dos animais.

Referências bibliográficas
Ayres D.C., Marcucci M.C. & Giorgio S. 2007. Effects of Brazilian propolis on Leishmania amazonensis. Men. Inst. Oswaldo Cruz. 102:213-22.

Cabral, I. S. R.; Oldoni T. L. C.; Prado A.; Bezerra R.M.N.; Alencar S. M.; Ikegaki M. Composição fenólica, atividade antibacteriana e antioxidante da própolis vermelha brasileira. Quim Nova. 2009; 32: 1523– 1527.

Moura L.P.P., Scapinello C., Martins E.N., Franco S.L. & Ribeiro M.C.M. 1998. Efeito da solução hidroalcólica de própolis e robenidina sobre a contagem de oocisto por grama de fezes de Eimeria ssp em coelhos Nova Zelândia. R. Bras. Zoot. 27:320-325.

Peravian P., Rezavazdi K., Nehzati G., Effect of propolis on plasma metabolites and hematocrit of Holstein calves Conference: 2014 ADSA-ASAS-CSAS Joint Annual Meeting July 2014.

Peravian P., Rezavazdi K., Nehzati G., The effect of soluble propolis in milk on the performace of Holstein suckling calves Conference 2014 ADSA – ASAS – CSAS Joint Annual Meeting July 2014.

Saeki E.K., Mello-Peixoto E.C.T., Matsumoto L.S., Marcusso P.F. & Monteiro R.M. 2011. Mastite bovina por Staphylococcus aureus: sensibilidade às drogas antimicrobianas e ao extrato alcoólico de própolis. Acta Vet Basíl. 5:284-290. 

Yucel B.; Onenc A.; Kaya A.; Altan O. Effects of Propolis Administration on Growth Performance and Neonatal Diarrhea of Calves. SOJ Vet Sci 1 (1): 102 (2015).

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Colostro suplementar e a saúde e desempenho dos bezerros

Por Carla Maris Machado Bittar
Em 30/05/2017 no site MilkPoint

Recentemente, a indústria pecuária tem sido encorajada a reduzir o uso de antibióticos na produção animal. É clara a preocupação com o desenvolvimento de bactérias de origem animal que apresentam resistência aos antibióticos utilizados na medicina humana. Entretanto, no manejo sanitário pecuário, a morbidade e mortalidade por doenças infecciosas ainda é uma causa comum de perdas econômicas para os produtores. Portanto, desenvolver alternativas aos antibióticos para minimizar as perdas associadas com doenças infecciosas é uma necessidade evidente da indústria pecuária.

O colostro bovino tem sido utilizado com êxito na medicina humana como uma terapia alternativa aos antimicrobianos no tratamento de doenças infecciosas do trato gastrointestinal. Isso se deve às propriedades antibacterianas e antivirais dos componentes do colostro bovino, tais como a lactoferrina e as citocinas pró-inflamatórias. Anticorpos específicos contra patógenos infecciosos contidos no colostro materno fornecem proteção ao bezerro recém-nascido durante os primeiros meses de vida e são importantes preditores de saúde e desempenho dos bezerros.

Desta forma, o objetivo da pesquisa conduzida por Chamorro et al. (2017) foi avaliar os efeito de uma dose suplementar de 150 g de substituto de colostro fornecido juntamente com o sucedâneo, durante os primeiros 14 dias de vida, para avaliar a ocorrência de doença, administração de antibiótico e parâmetros de desempenho de bezerros leiteiros durante o aleitamento com adequada transferência de imunidade passiva.

Para a pesquisa, foram utilizadas 202 bezerras da raça Holandesa com 1 dia de idade e todas com adequada transferência de imunidade passiva (IgG sérica >10 g / L). Após a chegada, as bezerras foram distribuídas em 2 tratamentos: Grupo controle (n= 100), recebendo sucedâneo sem suplementação de substituto de colostro. Grupo suplementado (n = 102), recebendo sucedâneo + substituto de colostro em pó (150 g de colostro bovino em pó contendo 32 g de IgG), duas vezes por dia durante os primeiros 14 dias de vida.

Os parâmetros clínicos avaliados foram: respiração, consistência fecal, depressão, umbigo e articulações. O tratamento com antibiótico foi realizado quando os parâmetros clínicos apresentaram-se anormais. Registrou o tipo de antibiótico e o número total de doses de antibióticos administradas (Tabela 1).

Tabela 1. Estatística descritiva do tratamento de antibiótico de acordo com a suplementação ou não de colostro.

suplementação com colostro
Sucintamente para o grupo de animais suplementados, as probabilidades de apresentar escore fecal, respiratório, depressivo e umbilical anormais foram 0,15; 0,46; 0,21; e 0,18 vezes, respectivamente, as probabilidades de bezerras do grupo controle (Tabela 2). Assim, as bezerras do grupo suplementado apresentaram menor probabilidade de apresentar escore fecal, respiratório, depressivo, umbilical e de articulação anormal em comparação com as bezerras do grupo controle (Tabela 2). 

Tabela 2. Índice de Probabilidades para escores fecal, respiratório, depressão, umbilical e avaliações clínicas conjuntas em bezerros.

suplementação com colostro
¹ n = número de medições (registado a partir de 202 bezerras observados de d 0 a 56)
2IP = Índice de probabilidade

Da mesma forma, a probabilidade de receber tratamento com antibióticos foi de 18,8% para animais suplementados com colostro e de 76,5% para animais do grupo controle. Para as bezerras suplementadas com colostro, a probabilidade de receber 1 ou mais doses de antibióticos foi 89% inferior aquela observada para animais controle.

O fracasso na transferência da imunidade passiva é um dos fatores de risco e preditores mais importantes da morbidade e mortalidade dos bovinos de leite. As concentrações séricas de IgG no primeiro dia de vida foi de 23,6 e de 22,8 mg/dL para animais suplementados e controle, respectivamente (Tabela 3). O nível médio de IgG sérica na chegada à instalação de criação de bezerros de ambos os grupos foi maior que os níveis propostos para que a transferência de imunidade passiva seja considerada "excelente" (15 mg/dL).

Nestas condições de transferência de imunidade passiva bem sucedida, a IgG sérica média à chegada não teve um efeito significativo na mortalidade, na apresentação de escores clínicos anormais ou no tratamento com antibióticos. A mortalidade neste estudo foi baixa (1,48%) possivelmente devido aos altos níveis de IgG sérica encontrados em todas as bezerras no início do estudo. No entanto, muitos animais do grupo controle apresentaram diarreias e vários apresentaram problemas respiratórios. Estes dados sugerem que a imunidade derivada da mãe nem sempre protege contra os desafios infecciosos na superfície da mucosa do trato entérico e respiratório.

Tabela 3. 
Concentração sérica de IgG no primeiro dia de vida e ganho de peso diário durante período de aleitamento.

suplementação com colostro

O fornecimento de aproximadamente 30% (150 g de pó de IgG a 14%) de um substituto do colostro duas vezes ao dia durante os primeiros 14 dias de vida exerceu efeito protetor contra a diarreia (escore fecal anormal), doenças respiratórias (escore respiratório anormal), aumento das estruturas umbilicais e tratamento com antibióticos em bezerros leiteiros reduzindo o risco de diarreia, doença respiratória e aumento umbilical. Adicionalmente, os bezerros suplementados tiveram um número total reduzido de doses de antibióticos administradas em comparação com o grupo controle.

Os substitutos de colostro têm sido defendidos como alternativa para evitar falhas na transferência de imunidade passiva em bezerros quando a disponibilidade de colostro materno é baixa ou quando a qualidade do colostro materno é comprometida devido a baixos níveis de IgG ou à presença de patógenos transmitidos pelo colostro. Com base nos resultados deste estudo, os substitutos de colostro podem também ser utilizados como suplemento da dieta líquida, seja no leite ou no sucedâneo para diminuir a ocorrência de doenças e a necessidade associada de tratamento com antibiótico em bezerros leiteiros em aleitamento, independentemente do seu status na transferência de imunidade passiva.

Mais informações sobre aleitamento de bezerros podem ser encontradas em um curso online exclusivo para assinantes do EducaPoint. Acesse: aleitamento-bezerras e confira.
Referências bibliográficas
CHAMORRO, M. f.; CERNICCHIARO, N. HAINES, D. M. Evaluation of the effects of colostrum replacer supplementation of the milk replacer ration on the occurrence of disease, antibiotic therapy, and performance of pre-weaned dairy calves. Journal of Dairy Science, v. 100 n. 2, p. 1378–1387. 201.

Comentários
Os benefícios do fornecimento prolongado de colostro para bezerros durante o aleitamento não é novidade. Vários estudos já haviam mostrado efeitos interessantes na saúde e consequentemente no desempenho de animais suplementados com colostro (ou mais especificamente leite de transição) durante as primeira semanas de vida. Embora os animais não tenham mais a capacidade de absorver anticorpos, seu fornecimento suplementar auxilia na imunidade local (intestino), sendo importante para animais que têm as diarreias como principal causa de morbidade e mortalidade. No entanto, o fornecimento durante por volta de 14 dias não é comumente realizado por produtores devido a baixa e variável disponibilidade de colostro e leite de transição nas propriedades. Com a entrada de vários produtos comerciais no mercado nacional, seja suplemento ou substituto de colostro, o produtor tem agora tecnologia disponível não só para adequar problemas na transferência de imunidade passiva, mas também para fazer fornecimento suplementar. O trabalho mostrou que mesmo em animais com adequada imunidade, a suplementação pode trazer benefícios reduzindo a probabilidade do animal apresentar diarreias, assim como a de receber tratamento com antibióticos.