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sábado, 22 de fevereiro de 2020

Queda de fertilidade durante o verão em vacas de leite: o efeito da produção de leite!

Por Milkpoint em 10/02/2020.

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A venda de leite é obviamente a principal fonte de renda de uma fazenda leiteira! Portanto, aumentar a produção de leite média do rebanho é uma estratégia interessante e muito utilizada para aumentar a receita do rebanho. Obviamente, esse aumento na produção deve fazer sentido em relação ao aumento dos custos com nutrição, que em geral vão aumentar com maiores níveis de produção de leite. Porém, um ponto importante a ser considerado durante o processo de aumentar a produção do rebanho, é dimensionar corretamente essa maior produção ao sistema de resfriamento dos animais. Isso é importante pois vacas de maior produção, e portanto com maior metabolismo, são mais susceptíveis ao stress térmico.     
É muito importante termos em mente que devido ao maior metabolismo, vacas de maior produção tem mais dificuldade em se resfriar. Em um estudo recente da Universidade da California-EUA, pesquisadores utilizaram um dispositivo que mensurou a temperatura corporal de vacas da raça Holandesa a cada 10 minutos durante o verão em um rebanho comercial na região de Tulare na California. Os animais estavam alojados em lotes com aspersores na linha do cocho e sala de ordenha, assim como um bom sistema de ventilação na sala de espera da ordenha. Apesar de todas as vacas do estudo estarem no mesmo lote, ou seja, expostas ao mesmo tipo de sistema de resfriamento, observou-se que animais de mais alta produção (acima da média) se mantinham com temperaturas corporais acima de 38.8 oC (ou 102oF) por muito mais tempo ao longo do dia (~45% do dia) se comparado aos animais de produção mais baixa (~27% do dia), como mostrado na figura abaixo. Ainda, animais de produção acima de 45 kg passaram próximo de 60% do dia com temperaturas corporais acima de 38.8 oC. Além disso, o pico de temperatura corporal foi claramente maior em animais de maior produção leiteira (Figura 1 – à direita).

Figura 1 – Curva de temperatura corporal de vacas Holandesas em lactação ao longo do dia para animais de maior ou menor produção em relação à média (Gráfico à esquerda). Pico de temperatura corporal máximo durante o estudo conforme produção da vaca em kg/dia (Gráfico à direita). Adaptado de Batista et al., 2015 (ADSA meeting).
Os dados apresentados na Figura 1 são muito importantes pois muitas vezes modificamos vários aspectos do manejo e nutrição com o objetivo de aumentar a produção de leite, porém nos esquecemos que existe a necessidade de dimensionar a capacidade de resfriamento do rebanho ao aumento da produção de leite.
Problemas de resfriamento podem causar diminuição não só do potencial de produção de leite, mas também de fertilidade que tende a ser pior em animais de maior produção. Por exemplo, um estudo conduzido no Brasil (Pereira etal., 2015) mostrou que vacas em lactação em condições de alto nível de stress térmico (THI > 70) que passaram uma maior parte do dia (>22% do dia) com temperatura corporal acima de 39 oC tiveram taxas de concepção muito baixas de apenas ~12% se comparado com animais que passaram menos tempo ao longo do dia (<22% do dia) com temperatura corporal acima de 39 oC, as quais tiveram taxas de concepção de ~25%. Estima-se que a queda de cada ponto na taxa de prenhez em rebanhos leiteiros tem um impacto econômico de cerca de $30 dólares por vaca/ano (www.dcrconsil.org). Sob este cenário, assumindo uma taxa de serviço média de 60%, uma queda de 25% para 12% na taxa de concepção como observada no estudo acima pode representar um prejuízo anual de cerca de ~ $240 dólares por vaca/ano ou mais de 1000 R$ por vaca/ano! sem contar outros prejuízos relacionados ao stress térmico como menor produção de leite, maior incidência de problemas metabólicos, etc.             
Portanto, em geral, animais de maior produção tem maior susceptibilidade a sofrer stress térmico e isso deve ser sempre levado em conta no momento de planejar a estratégia de resfriamento de vacas em lactação. O impacto econômico do stress térmico é grande e pode impactar significativamente a viabilidade financeira do rebanho! 
Referências:
BATISTA, E.O.S.; COLLAR, C. ; CARVALHO, P. D. ; DEL-RIO, N. S. ; BARUSELLI, P. S. ; SOUZA, A.H. 2015. Effect of daily milk production on core-body temperature of lactating Holstein cows. In: Joint Annual Meeting - ADSA, Orlando, Florida.
Pereira, M.H.C., A.D.P. Rodrigues, T. Martins, W.V.C. Oliveira, P.S.A. Silveira, M.C. Wiltbank, and J.L.M. Vasconcelos. 2013. Timed artificial insemination programs during the summer in lactating dairy cows: Comparison of the 5-d Cosynch protocol with an estrogen/progesterone-based protocol. J. Dairy Sci. 96: 6904-6914.

domingo, 1 de setembro de 2019

Lei & Marketing, o agro nacional precisa

Por José Luiz Tejon Megido, mestre em Educação Arte e História da Cultura pelo Mackenzie, doutor em Educação pela UDE/Uruguai e membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) em 30/08/2019 no site MilkPoint
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Acrimat
A frase milenar “A mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. A guerra de todas as guerras ocorre nas percepções das mentes humanas. Até o Papa entrou na crise da Amazônia pedindo orações e ajuda ao Brasil. Porém, a área da administração que trata disso chama-se marketing. Uma filosofia administrativa que coloca as percepções humanas no centro das decisões. A crise que vivemos agora no agronegócio, com a destruição da nossa reputação ambiental, tem um ângulo real: o crime, a ilegalidade não punida e combatida.
E por outro lado, uma ignorância do uso dos fundamentos da inteligência de marketing a serviço do agronegócio brasileiro.
1) O Brasil não sabe o que marketing significa, por isso não o utiliza, ou usa muito mal.
2) O Brasil não traduziu direito até hoje o conceito de agribusiness, criado em na Universidade de Harvard nos anos 50, por isso, não temos cadeias produtivas organizadas.
3) Associamos demandas de clientes e consumidores globais com ideologias político-partidárias erradas.
4) A concorrência do Brasil é forte e usa nossa ignorância de marketing contra o país.
5) Nossas realidades positivas não são transformadas em ativos valiosos percebidos. Com isso, perdemos valor e ficamos vulneráveis ao negativo, fakes e fatores incontroláveis.
6) Caímos na tentação ignorante da briga de rua, do ‘nós contra eles’, e perdemos aliados no mundo todo.
7) Precisamos de uma gestão de crise de reputação, de fundamentos de marketing e da aplicação da lei contra a ilegalidade no caso do desmatamento ilegal.
Temos no Brasil a Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio (ABMRA), além da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e outras associações. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, tem ótimas intenções: CNA, OCB, instituições acadêmicas de nível e profissionais éticos e excelentes que dominam o saber dos fundamentos de marketing.
Marketing & Agribusiness são dois estágios do conhecimento humano, vitais para atuar no mundo de hoje. O professor Ray Goldberg, de Harvard, já rebatiza o agronegócio com o nome Agrocidadania, Agriceutica, saúde e meio ambiente, responsabilidade social, a cidadania no centro de tudo.
Brasil: o único país do mundo com nome de árvore. Que marca genial para marketing.

domingo, 16 de junho de 2019

Compost barn: "não adianta investir em instalações modernas se as outras tarefas não são cumpridas"

Em 03/04/2018 no site Milkpoint


compost barn no Brasil

Não é novidade que os produtores de leite no Brasil estão buscando com maior frequência informações sobre o compost barn. O ‘boom’ do sistema ocorreu após algumas suposições como a maior facilidade de manejo e a finalidade clara e adequada para os dejetos dos animais. Confira abaixo a entrevista realizada com Ana Luiza Bachmann Schogor, Professora Doutora do Departamento de Zootecnia da UDESC Oeste. Ela também será palestrante do Interleite Sul 2018 e o tema da sua palestra é “A movimentação em direção ao confinamento via compost barn: números e constatações”. As respostas da entrevista contaram com a ajuda de Willian Maurício Radavelli (Zootecnista, M.Sc.).
MilkPoint - Recebemos muitos contatos no MilkPoint de produtores de leite em busca de informações sobre o compost barn. Por que este sistema de produção deu um "boom" no Brasil nos últimos tempos?
Ana Luiza Schogor: “Essa expansão considerável que o sistema compost barn tem tido nos últimos tempos, se deve a alguns fatores. Não os citando em ordem de importância, mas alguns deles são: transição para um sistema de confinamento com menor custo de implantação e a adoção de um sistema que promove o bem-estar animal (principalmente em quesitos de ambiência animal), manutenção de animais mais limpos (principalmente no momento da ordenha) e com menores índices de claudicação. Em pesquisa recente que acabamos de finalizar aqui no Oeste de Santa Catarina, encontramos também como justificativa para adoção do compost barn a necessidade de se facilitar o manejo dentro de propriedades leiteiras, que exploravam a atividade em sistemas tanto a pasto quanto a pasto com suplementação. Muitos produtores relataram que estes sistemas (pastejo + suplementação), na região, se tornaram inviáveis, devido à dificuldade de manejo com um aumento desejado do rebanho. Dificuldades que se multiplicam em períodos de grande variabilidade ambiental. Os produtores também relatam as dificuldades dos animais em percorrer grandes distâncias, muitas vezes em terrenos acidentados (o que aumenta os gastos energéticos e diminui a eficiência produtiva dos animais). Aliado a isso, cada vez mais, a escassez de mão de obra também tem pesado na tomada de decisão dos produtores, pois alguns relataram que ou 'fechavam os animais', ou paravam com a atividade”.
MilkPoint - Quais são os principais diferencias do compost barn?
Ana Luiza Schogor: “Definitivamente, bem-estar animal e conforto. Este conforto proporcionado pela cama, aliado a manejos corretos (nutricional, reprodutivos, de ordenha, sanitário), resultam em uma somatória muito positiva para a produtividade animal. Além disso, pode-se dizer que não é um sistema tão padronizado como o free-stall, o qual demanda um bom planejamento prévio das instalações e equipamentos. Muitos compost barns têm surgido de adaptações de antigas instalações, e têm apresentado resultados satisfatórios quanto à produtividade animal e qualidade e características de cama. Podemos destacar também a forma de tratamento dos dejetos, que em sua grande maioria (depositada da área de cama), deixa de ser um problema ambiental e se transforma em adubo de excelente qualidade. E, nos quesitos de alojamento, tal sistema permite a escolha de animais de raças e tamanhos distintos, devido ao local de descanso não apresentar delimitação para cada animal (sem entrar no mérito da questão da uniformidade de lotes, e sim da possibilidade de escolha por parte do produtor)”.

"Muitos compost barns têm surgido de adaptações de antigas instalações, e têm apresentado resultados satisfatórios quanto à produtividade animal e qualidade e características de cama"
MilkPoint - Como ele impacta no bem-estar dos animais e na saúde dos mesmos? E na produção de leite?
Ana Luiza Schogor: “Em nossa pesquisa, realizada entre janeiro e março de 2017 (portanto pleno verão), observamos que o ITGU (Índice de Temperatura de Globo e Umidade) interno e externo das instalações avaliadas foi de aproximadamente 77 e 84, respectivamente. Este valor deveria estar abaixo de 74, para podermos afirmar que os animais não se encontravam sob estresse calórico (para mais informações ver aqui). Assim, podemos notar que os valores internos estão um pouco acima dos desejáveis. Todavia, vale salientar que este é um valor médio das 30 propriedades avaliadas, e parte destes compost barns não possuíam sistema de ventilação para resfriamento dos animais. Mas em comparação aos valores externos, fica evidente a importância do fornecimento de abrigo adequado aos animais, frente à radiação solar direta. Quando analisamos a frequência respiratória dos animais, 93,7% se enquadraram por apresentar de 40 a 80 movimentos/minutos. De acordo com Silanikove (2000), valores entre 40 a 60 movimentos/minuto, representam baixo nível de estresse e de 60 a 80, estresse médio. Além disso, os animais apresentaram baixas taxas de claudicação (avaliamos mais de 1000 animais estabulados em compost barns, no momento em que os animais saíam da ordenha, e, portanto, em piso firme). Em nossas pesquisas, não avaliamos in loco o aumento de produtividade. Todavia, podemos afirmar que o ‘pacote tecnológico’ adotado quando da adoção do sistema compost barn, seguramente resulta em aumento de produção”.
MilkPoint - Você saber dizer quantos produtores são adeptos ao sistema hoje e a região onde há mais modelos instalados?
Ana Luiza Schogor: “No momento de nossa avaliação (até março de 2017), em nove municípios do Oeste catarinense, eram 43 galpões tipo compost barn, mas outros estavam em construção os quais até então, não entraram no levantamento. Atualmente, estamos realizando um levantamento de campo com cooperativas da região, para termos mais dados sobre o número de compost barns instalados. Com relação aos locais de instalação, temos observado ou recebido informações de que não só a região Oeste de SC, mas o noroeste do RS e o sudoeste do PR são regiões em que a implantação de galpões tem se dado de forma rápida e crescente”.
MilkPoint - O processo de transição de sistema (para quem opta por trabalhar com o compost) basicamente ocorre de que forma? Quais são os principais desafios?
Ana Luiza Schogor: “Os desafios são: planejar corretamente a instalação antes de construí-la; fazer um planejamento da atividade e qual a produção diária se almeja, para assim projetar a instalação para uma determinada capacidade/lotação; planejar as questões alimentares, pois ao contrário de sistemas semiconfinados, o fornecimento de alimentos passa a ser totalmente no cocho. Para identificar pontos importantes nessa transição entre sistemas, em nossa pesquisa, avaliamos se os produtores rurais receberam assistência técnica para a implantação do compost, ou se foram procurar alguma informação prévia, antes de instalar o sistema. Surpreendentemente, apenas 40% dos produtores receberam alguma orientação técnica para a implantação do sistema. Em sua maioria (60% dos produtores), buscaram observar outras propriedades e contaram com suas próprias experiências construtivas para implantação do galpão, fato que resultou em grande diversidade nos aspectos estruturais das instalações. De forma geral, os animais não apresentam dificuldade de adaptação com o sistema compost barn, pois em algumas situações, os animais estavam em um ambiente tão desafiador, com grande presença de lama, sem proteção contra a radiação solar direta, e com dificuldade para acesso a água, que qualquer melhoria realizada foi capaz de proporcionar resultados positivos”.
MilkPoint - Deixe um recado para os produtores que estão pensando em migrar o seu sistema de produção para o compost barn. 
“Planeje antes de construir. Hoje em dia, pensar em aspectos de sustentabilidade como menor produção de dejetos, uso eficiente da água, otimização da mão de obra, será um investimento para o futuro. Quando do início do compost, trabalhar com maior área de cama disponível por animal é uma atitude ‘sábia’, pois é melhor trabalhar com camas mais secas (apesar da menor taxa de compostagem), do que com camas mais úmidas. Alta umidade pode inviabilizar uma cama! Se for adaptar uma instalação, identifique as limitações dela, e o que seria necessário fazer para superar essas limitações (exemplo: baixo pé-direito aliado à necessidade de maior capacidade e eficiência de ventilação). E reflita! Pois determinadas adaptações iniciais que são realizadas com o objetivo de redução de custos, podem dificultar ou modificar a rotina de manejo. Então tenha isso em mente, para não se arrepender posteriormente. De nada adianta investir em instalações modernas, se o restante das tarefas de casa não são cumpridas. Pense que além da melhor ambiência e conforto que será proporcionado pelo sistema, devemos investir nos demais fatores que interferem na produção (nutrição, manejo, reprodução, genética) para aumentar os índices produtivos, e viabilizar o sistema a curto, médio e longo prazo”.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Uso associado de anti-inflamatório no tratamento de mastite clínica melhora o retorno econômico

Por Brunna Granja e Marcos Veiga Santos em 14 de maio de 2019 no site MilkPoint

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A mastite clínica (MC) bovina resulta em custos diretos e indiretos, com elevados prejuízos para as fazendas leiteiras. A MC compromete o bem-estar das vacas, o desempenho reprodutivo, incluindo o aumento do intervalo entre o parto e a concepção, menores taxas de concepção, assim como maior risco de perda embrionária.
Resultados de um estudo em 6 países europeus indicaram que a associação de meloxicam, um anti-inflamatório não esteroidal ao tratamento antimicrobiano de MC leves a moderadas aumentaram a taxa de cura da mastite e fertilidade em vacas leiteiras nos primeiros 120 dias de lactação. Nesse primeiro estudo, os resultados indicaram maior concepção na primeira inseminação artificial (IA) nas vacas tratadas com meloxicam e antimicrobiano para o tratamento da mastite clínica leve.
Considerando que a fertilidade é um fator importante para desempenho econômico dos rebanhos, um estudo realizado na Holanda avaliou o retorno econômico das melhorias na fertilidade em razão do uso associado de tratamento de MC com meloxicam sobre a lucratividade das fazendas. Foi utilizado um modelo de cálculo estocástico dos custos e benefícios do tratamento de vacas com mastite com a associação do meloxicam. Esse cálculo incluiu modelos de estimativas de resultados econômicos, como a produção de leite, intervalo entre partos, consumo de ração, entre outros, com o objetivo de avaliar a influência do tratamento com anti-inflamatório sobre os custos da eficiência reprodutiva. Sendo assim, foram avaliados dois cenários: com e sem a associação do meloxicam ao tratamento de MC leve a moderada nos primeiros 120 dias de lactação. Considerou-se que quando o meloxicam foi incluído a taxa de concepção foi de 31% x 21% (sem meloxicam) e que houve aumento da taxa de cura de MC.
Os resultados deste estudo mostraram que a produção média de leite por lactação nas vacas tratadas com meloxicam (8.441 kg/leite) foi menor do que das vacas não tratadas (8.517 kg/leite). Por outro lado, o desempenho reprodutivo das vacas melhorou no grupo tratado com meloxicam (média de 2,9 IA) quando comparado ao grupo sem tratamento (média de 3,7 IA). Para intervalos entre parto (IEP) e concepção foi observado menores valores para vacas tratadas com meloxicam (132 dias) e maiores para vacas sem tratamento (143 dias), assim como para IEP 405 dias para vacas tratadas com meloxicam e de e 416 para as não tratadas. Quando avaliado o risco de descarte, as vacas tratadas com meloxicam apresentaram menor risco de descarte (12%) do que as vacas não tratadas (25%).
Em relação aos resultados econômicos, houve benefício econômico líquido médio de € 42 / caso de MC por ano nas vacas tratadas com meloxicam em comparação com as não tratadas. Mesmo com a menor produção de leite das vacas não tratadas e com maior custo de tratamento com anti-inflamatório, os benefícios econômicos gerados pelo aumento do desempenho reprodutivo nas vacas tratadas com anti-inflamatório foram superiores em razão do menor consumo de alimentos, redução do número de inseminações e do descarte. Sendo assim, a associação de meloxicam no tratamento da mastite clínica nos 120 primeiros dias de lactação resulta em prováveis benefícios econômicos em diferentes cenários de sistemas de produção de leite.
Fonte:  Vansoest et al., Journal do Dairy Science, p.3387–3397, 2017 (https://doi.org/10.3168/jds.2017-12869)

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Fazendas 4.0, Lagoa Dourada: "optamos pelo robô já que com ele, as vacas têm uma vida mais livre"

Por Raquel Maria Cury Rodrigues em 02/05/2019 no site Milkpoint

Fazenda Lagoa Dourada - produção de leite

Opinião do blog: Não posso discordar de que o uso da informática será cada vez mais intenso no agronegócio. Claro que haverá uma variação muito grande de uso entre as regiões do Brasil. é abordado o problema da retenção da mão-de-obra e o desejo das pessoas em morar na cidade, desejo este muito variável, também, entre as regiões.



Aplicativos, softwares, robôs, drones, inteligência artificial no campo... quem achava que esses termos estavam muito distantes da realidade do produtor de leite brasileiro, se enganou. Ferramentas que contribuem com a leiteria surgem a todo momento, o que gera perspectivas para melhor produtividade animal e consequente expansão da produção de leite. Sendo assim, o MilkPoint está lançando hoje o Especial Fazendas 4.0, estreando com a Fazenda Lagoa Dourada, em Arapoti/PR.
Como Nico Biersteker e sua esposa Ellen iniciaram no leite?

Foram dois anos de extenso planejamento, estudos e construção para que tudo estivesse pronto para a recepção dos animais. A Lagoa Dourada, que possui 100 hectares para a produção de alimentos e 23 hectares de pastos e instalações, iniciou a produção de leite em abril de 2016. Chegavam duas cargas de animais da raça Jersey por dia diretamente da chácara do pai do Nico até completar o primeiro módulo de 130 animais. Alguns meses depois foram adquiridos mais dois plantéis de qualidade da região. Estes foram alocados no segundo módulo e hoje trabalha-se para que o terceiro módulo fique completo com gado produzido na própria fazenda. Nico é agrimensor e Ellen é administradora de empresas. Ambos não tinham experiência no setor leiteiro, mas Nico tinha alguma convivência pelo fato do pai possuir uma leiteria.
Compost barn desde o começo de tudo
O compost barn foi inaugurado já com a chegada das vacas em 2016. “Pensamos que seria mais inteligente fazer um composto e - se este não desse certo - continuaríamos a construção e transformaríamos a instalação em um free stall. Ao nosso ver, seria mais fácil assim que do ocorrer a situação contraria: a de não nos adaptarmos ao free stall e ter de ‘quebrar’ a construção para ir para o compost barn. O projeto foi todo desenhado de uma maneira que a migração para o free stall seja possível sem que ‘gambiarras’ sejam feitas. Mas essa não é a ideia. Por enquanto estamos felizes com o composto”, disso Nico, em entrevista exclusiva ao MilkPoint.
Segundo ele, a opção pelo compost foi porque em primeiro lugar o sistema proporciona maior conforto aos animais, que além de deitarem mais confortavelmente, também podem expressar melhores comportamentos naturais como cio e socialização em grupo. Em segundo lugar porque reduz muito a necessidade de tratamento de dejetos já que uma grande parte permanece no barracão. Além disso o manejo dessa cama é feito de forma mecanizada ao invés da limpeza de cada cama de forma manual.
“É verdade que o risco de um composto não dar certo é maior do que a do free stall dar errado em caso do administrador ser desleixado. Porém, se for bem trabalhado, as vantagens que enxergamos superam esse risco. O que é preciso ter em mente é que é necessário revirar essa cama duas vezes ao dia 365 dias por ano independente de ser final de semana ou feriado ou qualquer outra ‘desculpa’. Também não é indicado fazer esse tipo de instalação em locais com umidade relativa do ar extremamente alta. Além disso, alternar o uso da enxada rotativa com o escarificador é uma boa estratégia de manejo”, acrescentou.
Para o produtor, a maior vantagem é o incremento do volume de leite produzido pelas vacas, mas, há outros benefícios secundários, como a melhora nos índices de reprodução e o escore de locomoção. 
Atualmente a fazenda produz 9 mil kg/leite/dia com uma média por cabeça de 26,5 kg/dia.
O uso de robôs na Lagoa Dourada
Além de trabalhar com compost, a Lagoa Dourada utiliza a ordenha robotizada para ordenhar as vacasem lactação. Para Biersteker, a opção pelo robô dá a oportunidade para a vaca ter uma vida mais livre já que é ela quem decide quando será ordenhada, quando vai se alimentar e quando vai descansar.
“Acreditamos que uma vaca feliz e sem estresse produz mais leite o que nos dá satisfação por dois lados: ver a vaca bem e ver o tanque de leite mais cheio. Além disso, o robô nos dá acesso a uma enorme quantidade de dados o que facilita a detecção de doenças, cio e os possíveis gargalos e potenciais. Também, o foco do trabalho se concentra em horário comercial, dando aos colaboradores vantagem e conforto em detrimento ao trabalho em fazendas sem esta tecnologia”, explicou.   
Valquiria Martins Carvalho, médica veterinária e Farm Management Support da Lely Latin America, acrescentou que na Lagoa Dourada se nota claramente como as ferramentas disponibilizadas pelos 6 robôs podem trazer muitos outros benefícios em diversas áreas importantes da produção leiteira.
“Junto o casal define as metas do negócio bem como os indicadores de monitoramento de desempenho das diferentes áreas. As metas e resultados são compartilhadas com a equipe de funcionários que é composta por 6 pessoas, onde apenas 2 delas são responsáveis pelo manejo das vacas em lactação e outras tarefas relativas ao robô, enquanto os outros funcionários trabalham nos demais setores da fazenda, como a alimentação, cria e recria de bezerras, manutenção e mecanização. O ambiente de trabalho é benéfico para todos os envolvidos e quem mais se beneficia disso são as vacas. A calma e tranquilidade que encontramos na fazenda não é o que normalmente vemos em fazendas ao redor de 400 vacas em lactação”.
Sobre os robôs, Valquiria pontuou que Nico é sempre enfático em dizer que é uma ótima ferramenta, porém o produtor precisa utilizar suas funcionalidades a seu favor para que as vacas que requerem atenção ou algum manejo estejam na área de separação no dia e horários adequados, otimizando o tempo de trabalho do funcionário. Os dados gerados pelo sensor e atividade, em conjunto com os demais manejos adotados na fazenda, permitem o alcance de excelentes índices reprodutivos.
robôs e a ordenha leiteira
A sensibilidade dos sensores é grande, frequentemente a detecção das alterações é realizada antes mesmo do animal apresentar sinais clínicos evidentes, permitindo que o produtor o monitore e realize intervenções de modo rápido. A tecnologia utiliza a combinação destes parâmetros com algoritmos que geram ao produtor um número que varia de 0 a 100 e indica a probabilidade de o animal estar realmente doente.
“Na Fazenda Lagoa Dourada, essas informações são bem trabalhadas, duas vezes ao dia os funcionários consultam os relatórios de saúde para selecionar quais animais serão separados pelo robô para que eles possam realizar um exame físico detalhado e confirmar se o animal está doente e se será necessário realizar algum tratamento. Nico frequentemente nos relata que - no que diz respeito a mastite - os sensores auxiliam muito na identificação precoce em conjunto com a redução do uso de antibióticos, pois muitas vezes apenas o uso de anti-inflamatórios auxilia na remissão dos sinais clínicos, completou Valquiria.
Fazenda Lagoa Dourada - produção de leite
E o uso das tecnologias não se restringe apenas ao robô. A fazenda não abre mão de:
  • Carreta de trato horizontal, que faz uma mistura mais homogênea permitindo que a dieta prescrita pelo nutricionista fique mais perto daquela dieta fornecida no cocho;
  • Coçadores (escovas): melhora o bem-estar nos animais;
  • Alimentador automático para bezerras: simula uma vaca eletrônica, ou seja, imita-se um comportamento mais natural no qual a bezerra mama quando quer;
  • Agricultura eficiente:  uso de rotação de culturas para prevenção de certas doenças e facilidade no combate de ervas daninhas. Consequentemente, há um aumento de produção e diminuição no custo;
  • Genoma dos animais: o mapeamento genético identifica os melhores animais permitindo alavancar o melhoramento genético.  
bem-estar animal na Fazenda Lagoa Dourada
Quando questionado sobre a possível redução da mão de obra com o uso das tecnologias, Nico disse que o número de colaboradores não se alterou muito, mas sim, as horas de trabalho, horas extras e o nítido maior conforto aos colaboradores e animais. 
“O treinamento para as novas tecnologias é bem tranquilo já que hoje a maioria das pessoas é familiarizada com o celular, o que facilita no momento de ensinar a mexer nas funcionalidades do robô. Na verdade, é algo bastante intuitivo.  Também não posso deixar de citar que tivemos uma melhora na reprodução dos animais e cada cabeça do rebanho é analisada individualmente, pois optamos por uma pecuária de precisão”.
Onde a Lagoa Dourada quer chegar
A propriedade de Arapoti almeja alcançar 400 animais em lactação com uma produção média de 28 litros por animal dia. Um grande desafio apontado é a retenção de colaboradores.
“Acho muito desgastante ensinar, treinar e investir em um colaborador e este depois ir aplicar os conhecimentos em outra propriedade. Como a nossa área fica longe da cidade temos um desafio por este motivo já que hoje são poucos os que querem morar longe da vida urbana.  Outro desafio hoje é que ainda não pudemos fazer uma seleção de animais que seja bem adequada ao robô.  A partir do momento que houver sobra de animais, poderá ser feito uma seleção de forma a tornar o sistema mais eficiente. E por último, não posso deixar de citar a pouca experiência no negócio, já que ocorrem muitos ‘pepinos’ que nunca tínhamos resolvido antes e, portanto, não temos base anterior para apoiar as nossas decisões. Ou seja, estamos vivendo cada dia e aprendendo coisas novas sempre”, concluiu.   
A Fazenda Lagoa Dourada, realmente é um exemplo de que a tecnologia da ordenha em sistema robotizado proporciona muito mais do que somente não precisar ordenhar os animais, porém o potencial de aproveitamento de todas as ferramentas embutidas na tecnologia depende de decisão e ação do produtor e do modo como ele escolhe gerenciar sua atividade.
Fazenda Lagoa Dourada - produção de leite
Esta matéria contou com o oferecimento da Lely 

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

China e a sua evolução nas importações de lácteos

Por MilkPoint em 03/02/2018



As importações chinesas em 2016 e 2017 se beneficiaram de dois anos de queda na produção de leite. O crescimento da população e renda, a urbanização e outros fatores continuarão a impulsionar a demanda chinesa. Há também uma previsão de recuperação na produção nacional de leite do país - estimada em 3% neste ano. 
A tabela a seguir mostra a evolução total das importações chinesas discriminadas por produto. Isso comprova que os produtos com maior valor agregado apresentam taxas de crescimento anual muito significativas, como fórmulas infantis (+ 34,3%), iogurtes (+ 62,7%) e queijos (+ 11,2%). Por outro lado, a diminuição observada até recentemente, na importação de leite em pó integral, se recompôs (+ 12,0%).
A Fonterra já começou a oferecer cursos em Xangai para educar os chineses a consumir queijo. Mesmo com a decisão do ministro das finanças da China de reduzir as tarifas de importação para 187 bens de consumo, incluindo alguns queijos, ainda há muita coisa a ser explorada. 
Os principais exportadores da China são Nova Zelândia, Austrália, União Europeia e os Estados Unidos. Os produtos de maior valor agregado, como fórmulas infantis e iogurtes, são provenientes principalmente de países membros da União Europeia, como Holanda, líder na exportação de leite para bebês com uma participação de mercado de 29% e um crescimento das exportações de 11% em 2017.
Nesse contexto, a França também cresceu consideravelmente, posicionando sua participação de mercado atrás da Nova Zelândia (14% contra 16%), com um aumento notável nos volumes enviados em 2017 (+186% em relação ao ano anterior).
A França e os Países Baixos participam com 15% e 27%, respectivamente, na exportação de soro de leite em pó, ficando atrás dos Estados Unidos, líder de mercado sem concorrência com uma participação de mercado de 55%. Em contrapartida, o monopólio da Nova Zelândia continua sendo a exportação de leite em pó integral para a China, com uma participação de mercado de 92%, seguido de 3% da Austrália.
A Argentina exporta para a China 8% do volume total (cerca de 18 mil toneladas em 2017), no valor de aproximadamente US$ 27 milhões (4% do total exportado). Sendo os principais produtos: soro de leite, queijos macios, leite em pó desnatado, manteiga e outros produtos.
As informações são da OCLA, com informações do CLAL.it e MMO, traduzidas pela Equipe MilkPoint.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Graças a Trump, robôs produzirão porção maior do leite dos EUA

Por MilkPoint em 31/01/2018




ouco tempo atrás, o uso de robôs para ordenha de vacas era novidade nos EUA, mas hoje a automação está aparecendo em mais fazendas. Um dos grandes fatores por trás dessa tendência é que mais da metade da mão de obra das fazendas leiteiras é imigrante, e a política linha-dura do governo Trump sinaliza que os trabalhadores poderão ter ainda mais dificuldades para chegar aos campos. Os robôs são capazes de reduzir em 50 por cento o número de trabalhadores em uma fazenda leiteira.
Além das preocupações com a mão de obra, o crédito barato e as melhorias tecnológicas estão ajudando a inclinar a balança a favor dos robôs nas fazendas leiteiras, disse Mark Stephenson, diretor de análises de políticas leiteiras da Universidade de Wisconsin-Madison.
"Há inclusive pessoas que trabalharam por anos em algumas fazendas e que foram embora por medo de serem descobertas na condição de ilegais", disse Stephenson, por telefone. "Ninguém quer acordar um dia com mil vacas para ordenhar e sem ninguém para fazer o trabalho."
Atualmente, menos de 5 por cento das fazendas leiteiras dos EUA usam robôs. O número provavelmente aumentará em 20 por cento a 30 por cento por ano no futuro próximo, segundo Chad Huyser, vice-presidente para a América do Norte da Lely, uma fabricante de robôs para ordenha com sede em Pella, Iowa. Em todo o mundo, os robôs para fazendas leiteiras já representam um setor de US$ 1,6 bilhão, número que continuará crescendo, segundo relatório de janeiro da empresa de pesquisas de mercado IDTechEx.
60 vacas por dia
Os primeiros modelos de robôs ordenhadores de vacas não funcionavam muito bem, mas agora a tecnologia se tornou acessível e confiável, disse Stephenson. Os robôs trabalham acoplando equipamentos aos úberes das vacas, ordenhando e limpando os animais. Com um dos modelos mais populares, as vacas caminham até uma baia para serem ordenhadas quando queiram, e um robô opera em 60 animais por dia. A mecanização está aparecendo também de outras formas, com robôs móveis que empurram a ração e limpam a área depois que os animais saem.
Essa modernização é cara. Uma unidade robótica pode custar algumas centenas de milhares de dólares, segundo Marcia Endres, professora de ciências do leite da Universidade de Minnesota, que preparou modelos econômicos para robôs de ordenha. Ainda assim, se a máquina dura em torno de 15 anos e o custo total do fazendeiro por trabalhador é de US$ 25 a US$ 30 por hora, o investimento de quem instala a tecnologia acaba compensando, estimou.
Com a discussão promovida pela Casa Branca a respeito da construção de um muro dividindo o México e os EUA, e o impasse em relação à imigração no Congresso americano, que recentemente fechou o governo por três dias, existe o temor de que a tradicional força de trabalho agrícola dos trabalhadores imigrantes, incluindo os ilegais, possa diminuir ainda mais. No início do mês, o dono de uma fazenda leiteira de Michigan foi condenado a dois anos de prisão por contratar imigrantes ilegais.
As vacas costumam gostar do estilo de vida robótico. Os animais ganham certa autonomia e deixam de ser interrompidos o tempo todo pelos humanos, disse Matt Gould, editor do boletim informativo "Dairy & Food Market Analyst" na Filadélfia. Uma das consequências é o surgimento de comportamentos mais naturais no rebanho de vacas, que começam, por exemplo, a lamber umas às outras.
As informações são do Bloomberg, publicadas no UOL.

Setor agrícola do Mercosul rejeita oferta da Europa

Por MilkPoint em 31/01/2018




Produtores agropecuários do Mercosul se recusam a aceitar a proposta feita pela União Europeia de abertura de mercado e alertam que acordo final entre os dois blocos pode ficar desequilibrado.
Na noite de segunda-feira, 29, e na terça-feira, 30, num encontro ministerial em Bruxelas, a Comissão Europeia elevou sua oferta de abertura de 70 mil toneladas para 99 mil toneladas de carnes do Mercosul. O tema era central para destravar o impasse no processo que já dura 19 anos. O Brasil já havia deixado claro que, sem maior acesso para o segmento, não haveria um acordo.
A partir de agora, os ministros retornam aos seus países. Mas técnicos e negociadores ficam até dia 8 de fevereiro para tentar aproximar posições e fechar a base de um acordo. Uma nova reunião já foi marcada para o dia 18, em Assunção.
Negociadores revelaram que a meta é a de acelerar o processo e tentar concluir o entendimento até março. Fontes no Palácio do Planalto acreditam que o acordo é “possível”.
Os europeus se reúnem nesta quarta-feira, 31, com os 28 governos do bloco e serão cobrados pelas concessões que fizeram. A Irlanda, por exemplo, deixou claro nesta semana que não aceitaria uma ampliação das cotas de carne. No entanto, a proposta que foi apresentada ao chanceler Aloysio Nunes Ferreira foi alvo de dura crítica por parte das entidades que representam o setor agropecuário no Mercosul, entre eles a Associação Brasileira das Indústrias Exportadores de Carnes (Abiec), a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e a Sociedade Rural Brasileira.
“A oferta de 99 mil toneladas de carne não cumpre o mandato de 2010 e não contempla a ambição do setor no Mercosul”, disseram os grupos, que ainda apontaram para a “falta de informação” sobre o restante das condicionalidades. A oferta não atende às expectativas do setor agropecuário do Mercosul”, insistiram as entidades, num documento assinado por Gedeão Silveira Pereira, presidente da Federação de Agricultura do Rio Grande do Sul, e enviado aos ministros do bloco.
A demanda do setor é de que a cota seja estabelecida inicialmente em 100 mil toneladas e que haja um incremento anual até atingir 160 mil toneladas por ano.
O setor também criticou a falta de “transparência” do processo. “Confiávamos que os governos do bloco buscariam um acordo amplo e equilibrado, que trouxesse reais benefícios para os produtores rurais sul-americanos”, disseram as entidades na carta.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Opinião do Zé: Será que não é mais interessante aceitar este acordo para começar e colocar uma cláusula de revisão bianual? fica todo mundo olhando para o seu quadrado e esquecem do global. Sou contra acordos de "livre comercio" onde o comércio não é totalmente livre existindo várias cláusulas de limitação de quantidade e outros. Sou favorável a acordos sem limites de espécie alguma excetuando os casos onde o desequilíbrio é muito grande,mesmo nestes casos o acordo deve prever a liberação no menor espaço de tempo. Para mim o Mercosul já deveria estar negociando um acordo de livre comércio com o Reino Unido que esta saindo da União Europeia, há o interesse da Inglaterra o que facilitaria muito a assinatura de um acordo.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

As características que fazem da Nova Zelândia a maior exportadora de lácteos do mundo

Por Guilherme Ristow em 26/01/2018 no site MilkPoint


Dois anos atrás, ainda como estudante de medicina veterinária do CAV/UDESC em Lages-Santa Catarina, tive a oportunidade de vivenciar um estágio de um ano em uma fazenda leiteira na Alemanha, onde aprendi processos e manejos de como se produzir leite no sistema de confinamento free-stall. Passados dois anos, agora formado como médico veterinário, surge a oportunidade de desenvolver ainda mais a minha carreira na área, dessa vez um pouco mais isolado do resto do mundo, em um país aonde a indústria leiteira é uma das atividades mais importantes, se não a mais significativa da economia local.
No ano de 2017 o leite contribuiu com 35% das exportações de produtos primários da Nova Zelândia, gerando uma receita de 13,4 bilhões de dólares, empregando 50.000 mil pessoas (34.000 em fazendas e 16.000 na indústria), contribuindo fortemente com o PIB interno, gerando riqueza e emprego para a população local.
A Nova Zelândia é a maior exportadora de derivados lácteos do mundo, produzindo 3% do volume total de leite do planeta. Seu isolamento geográfico protege seu rebanho de doenças; sua condição climática perfeita, seu solo extremamente fértil, abundância de água e tecnologia aliados à ORGANIZAÇÃO fazem dela o local ideal para se produzir leite.
No ano de 2001 toda a cadeia leiteira do país foi reestruturada através de um ato público que trouxe diretrizes relacionadas a sustentabilidade, bem-estar animal, políticas de mercado interno, enfim, tudo o que engloba o know-how da indústria leiteira está nesse arquivo, o qual está disponível online para consulta (Dairy industry restructuring act 2001).
Se tem três tópicos que eu escolheria para definir a produção de leite na terra dos kiwis, são VOLUME, TECNOLOGIA e ESTRUTURA OPERACIONAL. A primeira é facilmente explicada pelo tamanho dos rebanhos que encontramos por aqui. Cinquenta por cento das fazendas possuem de 100 a 350 animais, 30% possuem 500 vacas ou mais, 12% apresentam 750 vacas e 5% mais de 1000 animais. Além disso, nos últimos anos o número de fazendas com rebanhos maiores que 400 vacas vêm aumentando, provando a aptidão kiwi por volume de produção.
O tópico tecnologia eu subdividiria ainda em mais dois sub tópicos, sistema de irrigação e melhoramento genético, os quais aliados aumentam significativamente a eficiência de todo o sistema leiteiro. Na Nova Zelândia, 800.000 mil hectares são irrigados, otimizando o crescimento de pasto para todos os tipos de cultura, leite, carne de gado e ovelha.
Os dois principais sistemas de irrigação aqui utilizados são o sistema pivot e o sistema K-line. O primeiro é 100% automatizado e requer altos investimentos que retornam apenas ao longo prazo, mas, no entanto, traz comodidade, durabilidade e garantia de eficiência de irrigação, convertendo investimento em aumento do volume de comida para os animais, que no final das contas reverterá em maior volume de produção de leite e melhora da remuneração do produtor.
Já o sistema K-line é muito mais barato, menos duradouro e exige algumas horas de manejo diário, precisando ser movimentado de acordo com o crescimento de pasto no piquete. Ou seja, na hora de optar pelo sistema de irrigação ideal para sua fazenda, capacidade de investimento do produtor e disponibilidade de mão de obra devem ser levados em consideração.
O melhoramento genético neozelandês é feito pela cooperativa LIC (Livestock Improvement Corporation), que é mantida por mais de 10.000 fazendeiros, prestando serviços de venda de sêmen fresco e congelado, inseminação, diagnóstico de prenhês, implementação de tecnologias e assistência técnica.
A cada quatro animais inseminados na Nova Zelândia, em três é usado sêmen de touros da LIC. Mais de 5 milhões de doses de sêmen foram comercializadas pela cooperativa somente em 2017 e mais de 800.000 mil animas tiveram análise de DNA feita para diagnóstico de doenças e teste de mérito genético.
Ela possui ainda um banco de dados de mais de 90% dos animais inseminados, fazendo com que o melhoramento genético seja uniforme em todo o país, gerando dados estatísticos e números reais do que tem sido feito até o momento.
O cruzamento mais utilizado nos últimos anos é do holandês (holstein-friesian) com animais da raça Jersey, originando o “kiwi-cross”. Essa cruza explora o rigor híbrido das duas raças, ou seja, a superioridade dos filhos em relação aos pais, gerando animais ótimos em conversão de pasto em leite, longevos, férteis, resistentes a doenças, produzindo mais proteína e gordura no leite que o holandês e, ao mesmo tempo, mais volume de leite que o Jersey.  
Outra ferramenta que eu considero inovadora e diferenciada é o chamado “herd testing” ou teste de rebanho, o qual permite que os fazendeiros obtenham informações individuais de cada animal do seu plantel, auxiliando na hora da tomada de decisão em relação a manutenção ou não da vaca na próxima lactação. Há duas companhias que realizam o herd testing por aqui, a CRV e a LIC, ficando a cargo do produtor de quando e com qual frequência realiza-lo.
Basicamente é coletado duas amostras de leite em dias separados e enviados para o laboratório das respectivas empresas. Os resultados saem em questão de dias, trazendo informações de volume de leite, teor de sólidos, contagem de células somáticas, contagem bacteriana, monitoramento de mastite clínica e subclínica, identificação de vacas improdutivas, bem como de vacas altamente produtivas que são de interesse para reprodução. Só no ano de 2017, 3,2 milhões de vacas passaram pelo herd testing, representando 65% do rebanho kiwi, provando que tecnologia, eficiência e volume podem, sim, andar juntos dentro da propriedade.


Outra característica que eu considero peculiar do sistema de produção leiteiro kiwi é o sistema operacional das fazendas. As propriedades são operadas por três sistemas diferentes: “owner-operator,” sharemilking” e ainda “contract milker”.
O primeiro são fazendeiros que são donos da própria terra, dos insumos, dos animais, das instalações e contratam um gerente e uma equipe para tocar as atividades, recebendo 100% da receita bruta. No entanto, arcam com 100% dos custos de produção. Essa categoria representa 72% de todas as fazendas da Nova Zelândia.
O segundo sistema, sharemilking, funciona da seguinte forma: o “sharemilker” opera a fazenda como se fosse o proprietário das terras; no entanto, não é. Ele acorda com real dono uma porcentagem dos lucros, utilizando toda a estrutura já pré-estabelecida (instalações, rebanho, maquinário, pastagens, sistema de irrigação), funcionando como se fosse um aluguel, sendo os lucros divididos entre o sharemilker e o real dono. O modelo de contrato mais comum é o 50/50%, onde o sharemilker arca com os custos de produção e salários dos funcionários e o lucro provém da venda da metade do volume do leite produzido mais a venda de animais excedentes (terneiros, novilhas e vacas), enquanto o dono arca com custos de manutenção da propriedade e seus lucros são oriundos dos 50% restantes do volume de produção mais o excedente de leite produzido no mês.
Esse sistema é altamente conveniente para um proprietário idoso que não quer mais se incomodar com o estresse de se produzir leite e não possui herdeiros para deixar a terra e ao mesmo tempo é muito vantajoso para um jovem motivado que quer dar o próximo passo na carreira, mas não possui condições de adquirir a terra, tornando-se um sistema de simbiose,  onde todos saem ganhando. Esse sistema faz parte do plano de carreira das fazendas criado na nova Zelândia, onde um simples assistente de fazenda um dia pode vir a se tornar um competente sharemilker, dependendo apenas de sua própria força de vontade, conhecimento e experiência adquirida.
O terceiro e último sistema é o contract milker, o qual funciona da seguinte forma: uma pessoa é contratada pelo dono da terra para produzir leite, recebendo uma remuneração de acordo com o montante de quilogramas de sólidos de leite produzidos, não arcando com custos de produção, nem com investimentos na propriedade.
De todas as fazendas, 73% delas são operadas no sistema owner-operator, 27% sharemilking e o restante ficando a cargo dos contract milkers.
A Nova Zelândia tornou a produção leiteira em uma indústria altamente atrativa, fazendo com que muitos jovens se interessem por ela. Há pessoas dos quatro cantos do mundo trabalhando nas fazendas, tods compartilhando o sonho de desenvolver uma carreira digna, com salários justos e perspectiva clara de crescimento, as quais é difícil se se obter em seus países de origem, pois a indústria leiteira em outros locais ainda vive no regime tradicional familiar, no qual você é fazendeiro ou peão, não permitindo que o peão vire um dia o fazendeiro.
Para se ter uma perspectiva do quão grande e importante é o segmento leiteiro para os kiwis apresento alguns números de produção referentes ao ano de 2016 e 2017, que deixam claro para o leitor que leite por aqui é coisa séria e um mercado em plena expansão. Nas duas últimas temporadas, o tamanho do rebanho total era de 4,9 milhões de vacas, para uma população 4,8 milhões de pessoas, ou seja, cada habitante poderia possuir uma vaca em casa para consumo de leite fresco diário.
A ilha norte possui 73% dos animais, ficando o restante localizado na ilha sul. São 1,7 milhões de hectares destinados exclusivamente à produção de leite, com uma densidade média de 2,8 vacas por hectare de terra e cada propriedade com um tamanho médio de 147 hectares, cada vaca produzindo uma média de 15 litros/dia, totalizando em média 2900 litros/ano, para um período de lactação de 255 dias.
Esses 15 litros por dia podem até parecer baixos se compararmos com outras realidades mundo a fora, até mesmo a brasileira, mas é válido ressaltar que a base da alimentação aqui é pasto, as vacas caminham longas distâncias para serem ordenhadas, o uso do concentrado é mínimo ou nulo e os animais sofrem com a variação climática ao longo do dia, ou seja, baixo custo, efetividade e produção de pasto são as premissas do sistema.
As leiterias espalhadas pelas duas ilhas processaram 21 bilhões de litros de leite e 1.8 bilhões Kg de sólidos em 2016/2017, transformando matéria prima em leite em pó (37%), leite UHT (21%), queijo (12%) e manteiga (9%), exportando 95% dos seus derivados para mais de 100 mercados espalhados pelo mundo, sendo os principais clientes China, Estados unidos, Emirados Árabes, Austrália e Japão.  
O leite é a principal fonte de proteína consumida no mundo e cada vez mais o mercado consumidor vem aumentando a pressão para se produzir de forma sustentável e eficiente. A Nova Zelândia está aí para nos mostrar que eficiência produtiva, gestão de recursos naturais e gestão de pessoas devem estar alinhados, buscando maximizar os ganhos para quem produz, para quem trabalha, para quem processa e para quem consome esse nobre alimento tão importante em nossas vidas. Viva o leite!

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Preços do litro de leite ao produtor no Brasil e em alguns países.



Abaixo seguem dois gráficos com os preços pagos pelo litro de leite no Brasil e uma comparação com alguns países do mundo.




Silagem de milho: Aspectos agronômicos fazem a diferença

Por Thiago Fernandes Bernardes em 24/01/2018 no site MilkPoint



O manejo da cultura do milho não é um dos mais complexos frente as outras culturas agrícolas plantadas no nosso país. Obviamente, a cultura do milho apresenta determinados entraves, mas agricultores não têm enfrentado sérios problemas ao conduzi-la. Contudo, o cenário vivido por muitos pecuaristas tem sido um pouco mais sombrio. Por que? Ocorre que muitas fazendas zootécnicas não possuem equipamentos especializados e mão-de-obra treinada para manejar o milho durante a fase agronômica. Somado a estes problemas, existe também a falta de foco para esta etapa. Ou seja, discute-se muito sobre os aspectos nutricionais da silagem de milho e muito pouco (quase nada) sobre o agronômico.  
Embora os híbridos transgênicos represente a maioria das nossas lavouras, muitos deles necessitam de aplicação de inseticidas ao longo do ciclo, conforme pode ser visto na Foto 1. Por outro lado, algumas pragas não tem controle estabelecido e, desse modo, não há o que fazer (Foto 2). Muitos híbridos também são susceptíveis às doenças de final de ciclo e necessitam de fungicidas. Em muitas áreas, principalmente onde não há plantio direto, as plantas daninhas infestam a cultura e, desse modo, há a necessidade de herbicidas.
Quanto ao programa de fertilização, há a adubação de plantio e, posteriormente, as fertilizações de cobertura, as quais apresentam períodos pré-determinados para serem realizadas. Todos esses aspectos agronômicos (controle de pragas, doenças, plantas daninhas e fertilização) devem ser desempenhados durante o período que mais chove na região central do país. Ou seja, nem sempre que uma praga precisa ser controlada ou um herbicida ser aplicado o manejo ocorrerá, pois há interferência do clima.
Então, silagem de milho com alto valor nutricional e custo reduzido acaba sendo para poucos. Nós criamos um hábito de discutir sobre a silagem de milho, a qual é uma forragem, como se ela fosse um ingrediente concentrado. Muitos nutricionistas que prestam serviço de formulação de dietas simplesmente vão até o painel do silo, coletam uma amostra, encaminham ao laboratório e, posteriormente, criticam o laudo em função do baixo valor nutricional. Faço um convite a esses profissionais a participarem da escolha do híbrido, acompanhar o plantio e todas as demais etapas que cercam a condução da cultura e a produção da silagem. Silagem de milho exige atenção e dedicação intensa, do início até o fim, ou seja, da escolha do híbrido até o cocho. Há a necessidade de ter uma visão macro do sistema.
Portanto, o valor nutricional de um híbrido deve ser discutido posteriormente a análise agronômica do mesmo, ou seja, é segundo plano. Híbridos que desempenham adequadamente durante a etapa agronômica devem ser preferidos pelos pecuaristas, pois a grande dificuldade de produzir uma silagem de milho está justamente neste período. A ensilagem per se (colheita, compactação e etc) é conhecida pelas fazendas zootécnicas e não traz grandes segredos.
Foto 1. Planta de milho atacada pela lagarta do cartucho. 
Foto 2. Plantas de milho atacadas pela larva alfinete.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Fibra efetiva para vacas leiteiras: aspectos práticos

Por Júlia D. Lima Dias e Marina A. Camargo Danés em  13/01/2018 no site MilkPoint



Vacas leiteiras de alta produção são desafiadoras. São animais exigentes, sobretudo quanto às condições de ambiência e alimentação. Precisam de conforto e alimentos de alta qualidade em dietas bem balanceadas para expressar o potencial produtivo e serem eficientes economicamente. No artigo anterior, destacamos as razões de uma exigência mínima de fibra por vacas leiteiras e o desafio de atender a alta demanda energética desses animais sem risco de acidose ruminal e prejuízo à saúde como um todo.

A fibra é quimicamente analisada como fibra em detergente neutro (FDN) na nutrição de ruminantes, mas nem toda fonte de fibra é aproveitada da mesma forma ou exerce as mesmas funções na fisiologia digestiva de vacas leiteiras. A FDN oriunda de concentrados não é fisicamente efetiva, ou seja, não participa na formação do MAT ruminal, que é responsável pelas funções de ruminação, mastigação e motilidade. A fibra de forragens finamente moídas ou peletizadas tem efetividade reduzida. Assim, o conceito de fibra fisicamente efetiva (FDNfe) abrange características químicas (teor de FDN) e físicas (tamanho de partículas) do alimento. 

Foi proposto que vacas leiteiras têm exigência mínima de FDNfe para a manutenção das funções e ambiente ruminal normal, e consequentemente, melhor aproveitamento das dietas. Zebeli et al. (2012) propôs que entre 14,8 e 19,6% da MS de FDN com tamanho acima de 8 mm seria a faixa segura de formulação para FDNfe. Nessa faixa, os animais mantêm um pH ruminal que permite a sobrevivência da flora responsável pela digestão da fibra no rúmen, sem prejudicar o consumo de alimentos.

Mas, como aplicar o conceito de fibra fisicamente efetiva no dia a dia de fazendas leiteiras? Para tal, é necessário entender a fisiologia do ruminante e a necessidade de fibra e, além disso: 

1) Saber como avaliar a quantidade de FDNfe das forragens utilizadas na fazenda; 
2) Aplicar essa avaliação na formulação de dietas; 
3) Entender como o processamento na colheita de silagens interfere na quantidade de FDNfe e sua relação com a disponibilidade do amido dos grãos; 
4) Conhecer fontes de fibra longa que podem ser utilizadas na fazenda. 

Na primeira parte deste artigo, discutiremos os dois primeiros conceitos, de maneira prática e aplicável. Na segunda parte, os outros dois conceitos serão abordados.

Avaliação do tamanho de partículas de forragens:
A primeira proposta de tamanho de partícula que estimularia a ruminação foi acima de 1,18 mm, pois seria esse o tamanho máximo observado nas fezes de carneiros. Assumiu-se que partículas desse tamanho ou menores escapariam do rúmen pelo passagem da digesta e não estimulariam a ruminação. No entanto, quando utilizado o separador com a peneira de 1,18 mm a quantidade de FDNfe tende a ser superestimada (Yang e Beauchemin, 2006). 

A ideia da utilização de um conjunto de peneiras para mensuração do tamanho de alimentos para ruminantes surgiu na década de 90. O padrão americano para esse procedimento inclui 5 peneiras de tamanhos diferentes (American National Standards Institute – ANSI, 1993) e pesquisadores simplificaram esse método para 2 ou 3 peneiras para seu uso em fazenda.

O separador de partículas com peneiras de 19 mm, 8 mm e eventualmente de 1,18 mm e um fundo é o chamado Penn State Particle Separator e hoje é o método mais utilizado no mundo para descrever o tamanho de partículas de forragens.

A necessidade de inclusão da peneira de 1,18 mm no separador foi estudada (Zebeli, et al., 2012) e concluiu-se que considerar a fibra acima da peneira de 8 mm foi suficiente para predizer o pH ruminal e comportamento alimentar em resposta a mudança no conteúdo de FDNfe de dietas. Após a estratificação das partículas, o ideal seria analisar o teor de FDN no material retido em cada peneira para calcular com mais exatidão o FDNfe. No entanto, isso encarece o processo e potencialmente reduziria a adoção dessa metodologia. É possível usar o teor de FDN da forragem avaliada e considerar que esse teor é constante entre os materiais de cada peneira. Apesar de isso não ser totalmente verdadeiro, as duas formas de avaliação são altamente correlacionadas, o que permite a utilização prática da adaptação do método. 

Assim, a maneira mais usual que caracteriza as forrageiras quanto ao conteúdo de FDNfe é passar o alimento pelo separador de partículas (Penn State) com duas peneiras e o fundo.

Figura 1. Separador de partículas de Penn State, com duas peneiras e o fundo.
penn state

Para avaliar um alimento, uma porção (aproximadamente 600 a 800 g, não é comum pesar antes da passagem) é colocada na parte superior do separador e este é agitado horizontalmente (para frente e para trás), movimentando cinco vezes de cada lado da caixa, girando a caixa e repetindo a rotação duas vezes, num total de 40 movimentos. A proporção do alimento retida acima da peneira de 19 mm é pesada e anotada, assim como a retida acima da peneira de 8 mm e aquela que caiu no fundo. Após a soma tem-se o peso total da amostra e pode-se calcular o percentual em matéria natural retido em cada peneira. 

Por exemplo:
- Amostra: Silagem de milho
- Total retido acima da peneira de 19 mm: 55 g
- Total retido acima da peneira de 8 mm: 429 g
- Total no fundo: 197 g
- Peso da amostra: 55 + 429 + 197 = 681 g
- Percentual da matéria natural em cada peneira:
- Acima de 19 mm: 55 / 681 = 8%
- Acima de 8 mm: (55 + 429) / 681 = 71% 
- Fundo: 197 / 681 = 29%

Para avaliação interessa a soma retida acima de 8 mm (soma do material retido nas peneiras de 19 mm e 8 mm) que, no caso do exemplo acima, corresponde a 71% da matéria natural. 

Aplicação do tamanho de partículas na formulação de dietas:
Com a avaliação do tamanho de partículas das forragens no separador de Penn State em mãos, o teor matéria seca, e de FDN de cada forragem, pode-se estimar a quantidade de FDNfe > 8mm na dieta. A quantidade de FDN acima de 8 mm de cada forragem é estimada multiplicando a proporção de partículas acima de 8 mm pelo teor de FDN na MS da forragem e a inclusão dessa forragem na dieta. Deve-se estimar o teor de FDNef de todas as forragens que compõem a dieta, mas não dos concentrados, pois concentrados não são fontes de FDN fisicamente efetiva. A exceção é o caroço de algodão. Para esse alimento é usual considerar a FDN como 100% fisicamente efetiva.

Vamos a um exemplo de uma dieta para vaca em lactação:
- Consumo de matéria seca estimado: 24,47 kg
- Consumo de silagem de milho na dieta formulada: 8,74 kg de MS
- Consumo de silagem de aveia na dieta formulada: 2,88 kg de MS
- Análise da silagem de milho: teor de MS: 32%; teor de FDN na MS: 49%
- Análise do tamanho de partículas da silagem de milho: partículas acima de 8 mm na matéria natural: 71%
- Análise da silagem de aveia: teor de MS: 36%; teor de FDN na MS: 53%
- Análise do tamanho de partículas da silagem de aveia: partículas acima de 8 mm na matéria natural: 83%
- Estimativa de FDNef > 8 mm: 8,74 kg (consumo de silagem de milho) x 49 % (teor de FDN) x 71% (partículas acima de 8 mm) = 3,04 kg de FDNef > 8 mm
- Estimativa de FDNef > 8 mm: 2,88 kg (consumo de silagem de aveia) x 53 % (teor de FDN) x 83% (partículas acima de 8 mm) = 1,26 kg de FDNef > 8 mm
- Total de FDNef > 8 mm na dieta: 3,04 kg + 1,26 kg = 4,3 kg

Quando dividido o total de FDNef > 8 mm pelo consumo de MS, tem-se o teor de FDNfe > 8 mm da dieta. Esse parâmetro é desejável entre 15 e 20 % da MS segundo Zebeli et al. (2012). 

No caso do exemplo acima tem-se:
- Consumo de matéria seca estimado: 24,47 kg
- Total de FDNef > 8 mm (vinda da silagem de milho e de aveia): 4,3 kg
- Teor de FDNef > 8 mm na dieta: 4,3 / 24,47 = 17,6% FDNfe na MS

No próximo artigo, discutiremos a importância do processo de colheita da silagem na FDNef da forragem e sua relação com a disponibilidade do amido do milho. Discutiremos ainda a necessidade de suplementar fibra longa em dietas com silagem finamente moída.

Referências bibliográficas:
American National Standards Institute. Method of determining and expressing particle size of chopped forage materials by screening. ASAE standards S424.1. 40th ed. Saint Joseph, p. 459-461, 1993.

Yang, W. Z.; Beauchemin, K. A. Physically Effective Fiber: Method of Determination and Effects on Chewing, Ruminal Acidosis, and Digestion by Dairy Cows. Journal of Dairy Science, Champaign, v. 89, n. 7, p. 2618-2633, 2006.

Zebeli, Q. et al. Invited review: role of physically effective fiber and estimation of dietary fiber adequacy in high-producing dairy cattle. Journal of Dairy Science, Champaign, v. 95, n. 3, p. 1041-1056, 2012.