As importações de soja pela China, maior comprador do produto do mundo, subiram em abril 13,4 por cento ante o mesmo período do ano passado, apoiadas pela forte demanda da indústria de farelo de soja, de acordo com dados publicados nesta segunda-feira pela Administração Geral da Alfândega. A China importou 8,02 milhões de toneladas de soja no mês passado. Este foi o quarto mês em que as importações estabeleceram um recorde para seus respectivos meses.
As importações subiram 26,7 por cento ante as 6,33 milhões de toneladas de março, de acordo com a alfândega, apesar das preocupações de que as tensões comerciais entre China e EUA possam se espalhar para o comércio de soja. "As importações de soja continuam a aumentar ano a ano, uma vez que a produção de carnes continua a se expandir na China, impulsionada pela demanda crescente por proteína", disse Liang Yong, analista da Galaxy Futures.
As importações de soja pela China atingiram um recorde de 9,5 milhões de toneladas em julho de 2015. A China geralmente compra grandes volumes de soja de maio a agosto.
Espera-se que as importações aumentem ainda mais nos próximos meses, para mais de 8 milhões de toneladas por mês, de acordo com várias previsões de analistas. A China comprou 27,54 milhões de toneladas de soja durante os primeiros quatro meses de 2017, um aumento de 18 por cento em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com dados aduaneiros. As importações de óleos vegetais em abril foram de 560 mil toneladas, alta de 24,4 por cento em relação ao mês anterior. As compras subiram para 1,97 milhão de toneladas nos primeiros quatro meses do ano, um aumento de 6,4 por cento ante o mesmo período do ano passado.
A operação Carne Fraca da Polícia Federal deixou em alerta agricultores das principais áreas produtoras do Brasil, com expectativas de que o saldo exportável e os estoques de soja e milho do país possam aumentar com uma queda nos embarques de carnes devido a embargos internacionais aos produtos brasileiros. Com uma maior oferta de grãos -- matéria-prima das rações para aves, suínos e bovinos--, os preços da soja e do milho devem ser pressionados, potencialmente desestimulando investimentos e expansões de áreas plantadas em regiões como o Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), no caso de os desdobramentos da operação da PF se prolongarem.
Regiões do Matopiba, onde os preços dos grãos são naturalmente mais baixos em função dos custos logísticos, estão entre aquelas com maior crescimento de área plantada, pela maior disponibilidade de terras --um ritmo de expansão que poderia ser colocado em xeque em um eventual cenário de preços mais baixos. "A agricultura vai sofrer também, os preços vão cair", disse à Reuters o superintendente de Desenvolvimento Econômico do governo do Estado de Tocantins, Vilmar Carneiro.
Na avaliação da autoridade, o Brasil vai demorar para recuperar sua condição exportadora anterior à operação Carne Fraca, uma vez que os processos de liberações de frigoríficos são morosos, com muitos importadores se aproveitando da situação de fragilidade do país. Tocantins, com pouco mais de 1 milhão de hectares destinados à soja e ao milho na safra atual, ampliou em quase 10 por cento o plantio da oleaginosa. Mas ainda teria 8 milhões de hectares de terras disponíveis, sendo considerado um dos Estados com maior disponibilidade de área, segundo dados do governo local.
Uma solução para os agricultores seria exportar os grãos que não forem utilizados pela indústria produtora de carnes do país, diante de uma esperada queda nas exportações de proteína animal, disse o superintendente de Desenvolvimento do Tocantins. "Vamos ter crescimento na forma de exportação de proteína vegetal", opinou ele, durante um evento no terminal ferroviário de Porto Nacional, da empresa de logística integrada VLI.
Até o momento neste ano as exportações de milho estão lentas, com produtores retraídos diante de um preço enfraquecido pela grande oferta esperada no Brasil e Argentina, além do câmbio atual, que reduz a competitividade do cereal brasileiro. "As exportações vão depender do mercado (preços) e câmbio. Dependendo de como for, vai ficar milho para o mercado interno, que paga um pouco melhor", afirmou à Reuters o coordenador de negócios da multinacional Cargill, Lucas Horst Maidana, no mesmo evento, realizado em parceria com o Rally da Safra, acompanhado pela Reuters nos Estados do Matopiba esta semana.
Segundo Maidana, se o produtor vendesse parte do milho para a exportação, ele valorizaria o produto que sobraria para o mercado interno. "Mas até o momento ele tem feito poucos negócios para exportação", comentou. As exportações de milho, que tradicionalmente ganham força no segundo semestre, poderiam crescer este ano para 26 milhões de toneladas, ante 18 milhões em 2016, segundo dados da Agroconsult, organizadora do Rally da Safra, com uma expectativa de safra recorde de 95 milhões de toneladas. Mas tais previsões foram feitas antes da eclosão da operação Carne Fraca.
Caso essas exportações não se confirmem, poderão elevar ainda mais os estoques de milho, já estimados pelo governo (Conab), ao final da temporada 2016/17, nos maiores volumes da história.
PRODUÇÃO PREOCUPADA
Enquanto esperam produtividade elevada na safra de milho este ano, alguns produtores têm o ânimo contido com a expectativa de preços menores do que no ano passado, quando a severa quebra de produção elevou fortemente as cotações. E mais recentemente estão ficando preocupados com os efeitos da Carne Fraca. O agricultor Sérgio Luis Bortolozzo Jr., da Canel, que planta em uma das melhores áreas de Uruçuí (PI), afirmou que muitas das consequências da operação Carne Fraca ainda são incertas. Mas ele vê como preocupante os efeitos para os preços.
"Se diminuirmos o consumo de carne, como vai consumir mais (milho), uma vez que 100 por cento do grão é para alimentação animal?", questionou Bortolozzo Jr., gerente de manejo da Canel, uma empresa de propriedade familiar que se instalou no Piauí em 1988. Bortolozzo diz que a Canel, que planta cerca de 15 mil hectares, entre soja, milho e algodão, ainda poderia expandir a área agrícola em mais 5 mil hectares. "Mas não vamos abrir (na próxima safra)", afirmou ele, lembrando que o mercado não está favorável.
Nas áreas visitadas pela Reuters esta semana nas principais regiões produtoras do Tocantins, Bahia, Maranhão e Piauí, as produtividades devem ser elevadas, beneficiadas pelas chuvas, mas o agricultor não vê muito para comemorar. "Vai produzir bem mais, mas a questão é o preço, que vai ser ridículo", disse Bortolozzo Jr. Alguns produtores da região do Matopiba temem que o preço do milho possa cair para cerca de 20 reais a saca, quando entrar a segunda safra em mais alguns poucos meses. Esse valor seria menos da metade que os agricultores receberam na temporada passada, quando as cotações foram infladas pela severa quebra.
Os estoques globais ao fim da safra 2016/17 estão estimados em um total de 507 milhões de toneladas
O Conselho Internacional de Grãos (IGC, na sigla em inglês)elevou nesta quinta-feira sua projeção para a safra global de grãos em 2016/17 ante uma previsão anterior já recorde, com a evolução impulsionada em parte por melhoras nas perspectivas para a safra de milho da China e para a produção de trigo na Austrália.
A produção total de grãos em 2016/17 deverá subir para 2,094 bilhões de toneladas, 10 milhões de toneladas acima da projeção anterior, divulgada em novembro, e 4 por cento acima dos 2,005 bilhões da temporada anterior.
"A alta resultante na oferta global está altamente ligada a um aumento na projeção do consumo", disse o IGC em relatório, estimando que o consumo global de grãos subirá em 4 por cento, para 2,062 bilhões de toneladas.
Os estoques globais ao fim da safra 2016/17 estão estimados em um total de 507 milhões de toneladas, ante projeção anterior de 504 milhões de toneladas e um total de 475 milhões no ano anterior.
A produção mundial de milho em 2016/17 foi revisada em 3 milhões de toneladas para um recorde de 1,045 bilhão de toneladas.
A China, segundo maior produtor de milho do mundo, deverá ter safra de 219,6 milhões de toneladas, ante projeção anterior de 217 milhões, mas ainda abaixo dos 224,6 milhões de toneladas da safra anterior.
A produção mundial de trigo em 2016/17 foi estimada em 752 milhões de toneladas, ante projeção anterior de 749 milhões e dos 736 milhões da safra anterior.
A maior revisão foi para a Austrália, onde a safra foi estimada em 33,5 milhões de toneladas, ante estimativa anterior de 28,3 milhões e 24,2 milhões de toneladas na safra anterior.
Já a produção global de soja em 2016/17 deverá ser de 334 milhões de toneladas, com retração ante os 336 milhões estimados anteriormente, mas ainda um recorde.
"Além de uma enorme colheita nos Estados Unidos, a produção no Brasil deverá ter um novo recorde, mais do que compensando a queda em outros países, principalmente a Argentina", disse o IGC.